Os julgamentos dos valores, que fazemos determinam nossas
ações, e na sua validade repousam nossa saúde mental e nossa felicidade. 10
...O “vício”, em última instância, vem a ser indiferença
para com o próprio eu e uma automutilação. 17
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20-21 |
Na arte de viver, o homem é simultaneamente o artista e o
objeto de sua arte: ele é o escultor e o mármore, o médico e o paciente. 26
O dever de estar vivo é o mesmo que o dever de
transformar-se em si próprio, isto é, de transformar-se no indivíduo que ele é
em potencial. 28
“O homem sábio não pensa na morte mas sim na vida” Spinoza.
46
O homem tem de aceitar a responsabilidade por si próprio e o
fato de que só empregando suas forças é que poderá dar um significado à sua
vida. 48
Tipos de temperamento – colérico (enfurece facilmente),
melancólico (deprimido), sanguíneo (super otimista), fleumático (lento demais).
54
Quando o eu individual é desprezado, as relações entre as
pessoas têm por força de tornar-se superficiais, porque não são elas mesmas,
mas sim mercadorias intermutáveis que se relacionam. 74
Os alunos têm de aprender tantas coisas que mal lhes restam
tempo e energia para pensar. O principal incentivo para querer mais e melhor
educação não é o interesse pelos assuntos ensinados ou pelo conhecimento e
insight assim adquiridos, mas sim o maior valor de troca assegurado pelos
conhecimentos. 75
A infelicidade e a tristeza provam que o homem não sabe
viver.
...não é o erro que prejudica o homem, mas sim a
inatividade. 89
Ao fim da vida, ele descobre que seu caráter explorador e
egoísta impediu-o de chegar a ser ele próprio, que a realização do eu só é
possível se a pessoa for produtiva, se ela fizer germinar suas potencialidades
individuais. 91 [se refere a “o Homem Moderno à procura de si mesmo” de Peer
Gynt – Ibsun]
Ama-se aquilo por que se trabalha, e trabalha-se pelo que se
ama. 95
Amar produtivamente uma pessoa significa relacionar-se com
sua essência humana, com o que nela representa a humanidade. 97
Não é possível respeitar alguém sem o conhecer; o desvelo e
a responsabilidade seriam cegos se não fossem orientados pelo conhecimento da
individualidade da pessoa. 97
A inteligência é o instrumento do homem para alcançar
objetivos práticos com a finalidade de descobrir os aspectos das coisas cujo
conhecimento é indispensável para que possa manuseá-las. 97
Só podemos ser objetivos se respeitarmos as coisas que
observamos; ou seja, se formos capazes de vê-las em sua singularidade e em sua
interconexão. 99
...a objetividade impõe que se veja o objeto como é. 100
Trabalho, amor e pensamento produtivos só são possíveis se a
pessoa pode ficar, quando necessário, quieta e a sós consigo mesma. Ser capaz
de escutar a si mesmo é uma condição prévia para a capacidade de escutar os
outros; ficar à vontade consigo mesmo é a condição indispensável para poder
relacionar-se com os outros. 102
A afirmação da própria vida, felicidade, crescimento,
liberdade do indivíduo, origina-se de sua capacidade de amar...
Se um indivíduo é capaz de amar produtivamente, ele também
ama a si mesmo; se só pode amar a outros, é porque não pode de fato amar. 122
...nada existe mais propício a dar à criança a experiência
do que são alegria, amor e felicidade do que ser amada pela mãe que ama a si
mesma. 124
O interesse próprio deixou de ser determinado pela natureza
do homem e por suas necessidades... 125
“Agirei de acordo com a minha consciência” 131
Se não existisse a consciência, a raça humana há muito tempo
teria ficado atolada em seu atribulado caminho. 132
Um aspecto particularmente saliente da singularidade da
autoridade é o privilégio dela ser a única que não obedece à vontade de outrem,
mas sim quem quer, que não é um meio porém um fim em si mesma; que cria e não é
criada. Na orientação autoritária, o poder de querer e criar é privilégio da
autoridade. Os subordinados são meios para os seus fins e, consequentemente,
propriedade sua e que são usados tendo em vista seus próprios propósitos. A
supremacia da autoridade é posta em dúvida quando a criatura tenta deixar de
ser uma coisa para tornar-se um criador. 138
[INTERESSE PRÓPRIO – VALORES (EU) X INTERESSE PRÓPRIO –
SUCESSO, RIQUEZA (OBJETO)]
A produtividade é a fonte da força, da liberdade e da
felicidade. 138
...a consciência culpada (autoritária) torna-se a base para
uma consciência “tranquila”, ao passo que a consciência tranquila, caso alguém
a tenha, deverá criar um sentimento de culpa. 139 [paradoxo]
A consciência é pois, uma reação de nós face a nós mesmos.
146
Se a consciência sempre falasse alto e bem claramente, só
uns poucos seriam desviados de seu objetivo moral.
Quanto mais produtivamente se vive, tanto mais forte é a
consciência da gente e, por sua vez, tanto mais ela exacerba a produtividade. (...)
a situação paradoxal – e trágica – do homem é que sua consciência é mais fraca
justamente quando mais dela precisa.
Outra resposta para ineficácia relativa da consciência é
nossa recusa a escutar e – o que é mais importante ainda – nossa ignorância de
como ouvir. 147
Escutamos todas as vozes e a todos, mas não a nós mesmos
(...). Essa arte requer outra habilidade, rara no homem moderno: a de ficar a
sós consigo mesmo. 148
Morrer é sumamente acerbo, mas a ideia de ter de morrer sem
haver vivido é insuportável.
A decadência da personalidade na velhice é um sintoma: é a
prova de não se ter logrando viver produtivamente. 149
Só se ele compreende a voz de sua consciência, pode retornar
a ser ele próprio: se ele não puder, perceberá; ninguém poderá ajudá-lo senão
ele próprio.
“A lógica sem dúvida é inabalável, mas não pode resistir a
um homem que quer continuar vivendo”. Kafka – O Processo
Essa análise indica que a felicidade e a alegria, embora em
certo sentido sejam experiências subjetivas, são a resultante de interações e
dependentes de condições objetivas. Tais condições objetivas podem ser
resumidas, de modo lato, como produtividade. 158
Felicidade a infelicidade são de tal forma um estado de
nossa personalidade total que as reações físicas muitas vezes traduzem-nas
melhor do que o nosso sentimento consciente. 165
“O pseudo prazer e a pseudo dor são, deveras, apenas
sensações simuladas; são antes, pensamentos sobre sensações do que experiências
emocionais genuínas. 166
A deficiência produz tensão e o alívio desta dá lugar a
prazer. (...) [a deficiência pode fundar-se em processos psíquicos; como fome,
sonolência quando na verdade não são condições físicas] 168
[ponto de vista hedonista – considerando a felicidade idêntica
à experiência imediata]
(prazeres)
[Quando a satisfação vem de necessidades fisiológicas são
normas e condição indispensável à felicidade. Quando são desejos neuróticos são
uma mitigação temporária da necessidade.] 169
A felicidade é uma conquista ocasionada pela produtividade
interior do homem e não uma dádiva dos deuses. 172
A felicidade é o indício de que o homem encontrou a solução
para o problema de sua existência: a realização produtiva de suas
potencialidades e, assim, simultaneamente conseguiu unir-se ao mundo e
preservar a integridade do próprio eu. Ao despender produtivamente sua energia,
aumenta seus poderes: ele “arde sem se consumir”. 172
Depressão nasce da esterilidade e improdutividade interiores.
172
Os fins têm sido muitas vezes esquecidos numa preocupação
obsessiva com os meios. 174
176 |
A investigação psicanalítica do mecanismo das dúvidas compulsivas revela que elas são a expressão racionalizada de conflitos emocionais inconscientes, provindos de uma falta de integração da personalidade total e de um intenso sentimentalismo de impotência e incapacidade. 180-181
...nessas pessoas automatizadas tenha desaparecido a dúvida
ativa, seu lugar foi tomado pela indiferença e pelo relativismo. 181
A história da ciência está repleta de casos de fé na ração e
visão da verdade. 185
Só a pessoa que tem fé em si mesma é capaz de ser fiel a
outras, pois só então pode estar certa de que será no futuro a mesma que é hoje
e, portanto, de sentir e agir como agora espera fazer. Fé em si mesmo é uma
condição para a capacidade de prometer qualquer coisa, e como, segundo
Nietzsche notou, o homem pode ser definido por sua capacidade de prometer, essa
é uma das condições da existência humana. 186
Educar é o mesmo que auxiliar a criança a realizar suas
potencialidades. O contrário de educação é manipulação, que se baseia na
ausência de fé no florescimento das potencialidades e na convicção de que a
criança só será direita se os adultos lhe impingirem o que for conveniente e
eliminarem o que pareça indesejável. 186
A base da fé racional é a produtividade; viver por nossa fé
significa viver produtivamente e ter a única certeza que existe: a certeza que
germina da atividade produtiva e da experiência de que cada um de nós é o
sujeito ativo de quem essas atividades constituem o predicado. 187
188 |
As idéias da liberdade ou democracia degeneram em nada a não ser fé irracional, uma vez que não se baseiam na experiência produtiva de cada indivíduo, porém lhe sejam apresentadas por partidos ou Estados que o forçam a acreditar nelas. 188-189
O homem não pode viver sem fé. A questão crucial para nossa
geração e as seguintes é saber se essa fé será uma fé irracional em chefes,
máquinas, sucesso, ou a fé racional no homem fundada na experiência de nossa
própria atividade produtiva. 189
A ideia da desvalia e nulidade do homem encontrou uma
expressão nova, e desta feita completamente secular, nos sistemas autoritários
em que o Estado ou a “sociedade” se torna o governante supremo, ao passo que o
indivíduo, reconhecendo sua própria insignificância, deve por hipótese
satisfazer-se com a obediência e a submissão. As duas idéias, conquanto
claramente separadas nas filosofias da democracia e do autoritarismo, são
mescladas em suas formas menos extremas no modo de pensar, e mais ainda no de
sentir, de nossa cultura. 190-191
A teoria de Freud é dualista. Ele não vê o homem seja como
essencialmente bom, seja como essencialmente mau, mas como acionado por duas
forças contraditórias igualmente potentes. 192
Duas espécies de ócio: o racional ou “reativo”, e o
irracional ou “condicionado pelo caráter”. O primeiro é a reação de uma pessoa
contra uma ameaça à vida, liberdade a ideias, suas ou de outra pessoa, sua
premissa é o respeito pela vida [...]. O segundo é o traço de caráter, uma
disposição contínua para odiar, que consiste no íntimo da pessoa que é hostil
em vez de reagir contra um estímulo vindo de fora. 192-193
O ódio irracional dirige-se tanto contra outras pessoas
quanto contra o próprio individuo, apesar de nos apercebermos melhor de odiar
outras de que a nós mesmos. O ódio contra nós mesmos é comumente racionalizado
como sacrifício, desprendimento, ascetismo, ou auto-acusação e sentimento de
inferioridade. 193
A potencialidade primária que se concretiza se estiverem
presentes as condições apropriadas, a potencialidade secundária, que se
concretiza se as condições forem contrárias às necessidades vitais. Como ter ou
não condições para uma semente germinar. (...) a destrutividade é uma potencialidade
secundária do homem, que só se manifesta quando ele deixa de realizar suas
potencialidades primárias, teremos respondido apenas a uma das objeções contra
a ética humanista. O homem se torna mau quando estão ausentes as condições
adequadas a seu crescimento e desenvolvimento. 195-196
O homem, estando vivo, não pode deixar de querer viver, e o
único modo de conseguir sucesso na arte de viver é seus poderes, para gastar
aquilo que possui. 197
Os sintomas neuróticos são a manifestação da luta que a parte
sadia da personalidade sustenta contra as influências deturpadoras voltadas
contra seu desabrochar. 197 [...] Pode-se dizer que toda neurose representa um
problema moral. 200
Reprimir um impulso significa afastá-lo da consciência, mas
não significa eliminá-lo. 203
Se a sociedade estiver interessada em tornar as pessoas
virtuosas, deve interessar-se em torná-las produtivas e, por conseguinte, em
criar as condições para o desenvolvimento da produtividade. 204-205
Não façais aos outros o que não quereis que nos façam
A experiência de alegria e felicidade não é só o resultado
da vida produtiva, mas também o seu estímulo. 205
O homem é a única criatura dotada de consciência. Sua
consciência é a voz que o convoca de volta para si mesmo, permite-lhe saber o
que deve fazer para se tornar ele mesmo e auxilia-o a permanecer a par das
metas de sua vida e das normas necessárias à consecução dessas metas.
Consequentemente, não somos vítimas indefesas das circunstâncias; somos
capazes, de fato, de modificar e influenciar forças dentro e fora de nós mesmos
e de controlar, pelo menos em certa medida, as condições que atuam sobre nós
[...] 202
Compreendemos como
e por que ele se tornou o que é, mas
também podemos julgá-lo ao que ele é.
210
A principal missão do homem em sua vida é dar à Luz a si
mesmo, é tornar-se aquilo que ele é potencialmente. 211
Compreender uma pessoa não equivale a justificá-la: quer
dizer apenas que não a acusamos como se a gente fosse Deus ou um juiz colocado
acima dela. 211
A atividade do homem face à força tem suas raízes nas
próprias condições de sua existência. Como seres físicos, estamos sujeitos ao
poder – ao poder da Natureza e o poder do homem. 218
A liberdade é a condição necessária à felicidade assim como
à virtude – liberdade, não no sentido da possibilidade de fazer escolhas
arbitrárias nem no de libertação das necessidades, porém liberdade de
concretizar aquilo que a pessoa é potencialmente, de consumar a verdadeira
natureza do homem conforme as leis da vida. 220
Nosso problema moral é a indiferença do homem para consigo
mesmo. Repousa no fato de termos perdido o senso do significado e originalidade
do indivíduo, de nos termos transformados em instrumentos para finalidades
alheias que nós mesmos e de nossos
próprios poderes terem-se tornado estranho para nós mesmos. Nós e o nosso
próximo convertemo-nos em coisas. O resultado é que nos sentimos inermes e
desprezamo-nos por nossa impotência. Como não temos confiança em nosso próprio
poder, não temos fé no homem nem em nós, nem tampouco no que pode ser criado
por nossos próprios poderes (...). Somos um rebanho que acredita que o caminho
que estamos seguindo deve ir dar em algum lugar já que todos os demais o
seguem. Estamos no escuro e nossa coragem ainda não esmoreceu porque ouvimos
todos os outros assobiando como nós. 220-221