segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Corrida - de volta à orla


 Às vezes esqueço de escrever sobre as corridas. Eu estava indo muito bem, treinando na esteira e melhorando com o objetivo de correr com mais frequência na orla e aumentar a distância. Inclusive, consegui fazer 10km na esteira. Mas o meu gato ficou muito doente e passei três semanas sem nenhum treino. Ele acabou falecendo no início da terceira semana de internação.

Mas ainda de luto (não sei se existe algum momento em que superamos uma perda), voltei a treinar e praticar na esteira. Depois fui pra uma corrida na orla e me surpreendi com o resultado. Fazia tempo que eu não corria no solo e sempre é mais desafiador. Ainda mais porque estava ventando muito forte. O dia estava nublado. Eu esperei uma chuva passar, analisei as nuvens e a direção do vento antes de decidir sair pra correr. Não queria me arriscar a pegar chuva durante a corrida.

Eu pensei em escolher uma outra playlist para ouvir mas acabei colocando o de sempre: Rebirth - Angra. Ou esse ou o Dirt do Alice in Chains. Isso tudo por preguiça de atualizar o iPod. Confesso que tenho sempre certa dificuldade em utilizar o iTunes. Eu queria mesmo era um mp3 mas não achei um bom até hoje - inclusive nem se vende mais. Sou old school mas nasci em 93.

Gostaria de escrever mais mas a minha vida está caótica de afazeres. Se fosse trabalho com alguma remuneração… mas estou estudando e trabalhando nos meus projetos. Quero finalizar os projetos em andamento para não acumular tanta coisa para o próximo ano.

Meu objetivo de correr 10km foi alcançado, mas sigo com esse objetivo de repetir essa mesma distância e fazer um trajeto de Olinda p/ o Recife Antigo. Mas preciso comprar um tênis novo! Vou aguardar a próxima black friday. Meu tênis uso há anos e está acabado!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Corridas de 2022

 

Eu só percebi que eu não escrevi sobre as minhas corridas quando fui responder um reddit.

Ano passado, em 2022, comecei a usar o reddit para entrar em fóruns do meu interesse: corrida, gaita, encadernação e etc. E na virada desse ano de 2023, uma pessoa sugeriu formar um grupo no Strava para compartilhar as corridas de rua.

Acho muito legal essa ideia, sendo que eu não utilizo Strava ou quaisquer apps de corrida. Eu não levo o meu celular para correr e também não levo meu celular pra ir a academia - por motivos diferentes.

Eu fiz muitas corridas desde a última atualização aqui no blog, e, como podem ver, eu printei a distância utilizando o google maps. Eu registro as referências enquanto estou correndo para conseguir fazer a minha rota quando eu chego em casa.

Alguns desses prints eu compartilhei no stories do instagram, mas cada vez mais estou usando menos as redes sociais. E algumas eu escrevi no meu journal.

Tive alguns perrengues ano passado: machuquei meu pé, quase desloquei o ombro (descobri que tenho frouxidão ligamentar) e meu joelho também doeu muito numa das corridas. Então eu fiquei de molho por duas vezes.


Escrevi o seguinte:

"Consegui correr 8km terça dia 9 de agosto, batendo o meu recorde. Muito feliz! E no mesmo dia fui treinar judô depois de um ano sem pisar no dojô. Muito feliz! Resultado: eu estava com um calo grande embaixo do pé e no treino ele estourou e ficou aberto, em carne viva. E domingo eu tenho um show pra ir - Edu Falaschi - Vera Cruz e Rebirth."

E eu lembro bem de como eu estava feliz nesse período. Eu já tinha ido no show do Angra que foi um sonho antigo realizado.

Calo - resolvi esse problema. Tive vários calos por causa das meias que eu usei. Depois disso, fui comprar uma meia apropriada na Centauro. E foi um par de meias bem em conta. Foi uns 30 ou 35 reais, não mais do que isso.

Os dois primeiros prints mostram o registro também da direção do vento porque isso é um fator que conta muito durante a corrida. À favor, não preciso comentar. Mas correr contra o vento não é fácil não. Exige um pouco mais de esforço, mais músculo e, consequentemente, é mais difícil.

O interessante desses prints é poder enxergar o meu progresso. Pensando bem, 2022 até que não foi um ano tão terrível assim.

Próximo: corridas mais recentes, as primeiras de 2023 e meu novo recorde!

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Amor, fé e esperança - trecho do livro O Tambor

 Já vem! Já vem! Quem vem? O Menino Jesus, o Salvador? Ou era o celestial homem do gás, com o gasômetro fazendo tique-tique sob a braço? E ele disse: Eu sou o Salvador deste mundo, sem mim não podeis cozinhar. E aceitou o diálogo, ofereceu uma tarifa favorável, abriu os registrozinhos de gás recém-polidos e deixou sair o Espírito Santo, para que se pudesse assar a pomba. E distribuiu nozes e amêndoas que, ao se partirem ali mesmo, desprendiam também emanações: do Espírito e do gás, a fim de que os crédulos pudessem ver sem dificuldade, entre o ar espesso e azulado, em todos os empregados da companhia e à porta dos grandes armazéns, Papais Noéis e Meninos Jesus de todos os preços e tamanhos. E assim acreditavam na companhia de gás, sem a qual não há salvação possível, e que, com a pulsação ascendente e descendente dos gasômetros, simbolizava o destino e organizava a preços módicos um Advento que fazia crer a muitos crédulos que o Natal viria. Mas não sobreviveriam ao cansaço das festas senão aqueles que não haviam conseguido uma provisão de amêndoas e de nozes suficiente, embora todos tivessem achado que as havia de sobra.

Mas logo que a fé em Papai Noel se revelou fé no homem do gás, recorreram, sem respeitar a sequência da Epístola aos Coríntios, ao amor. Está escrito: Eu te amo, oh, sim, te amo! Amas a ti também? E, dize-me: Amas-me tu também, amas-me verdadeiramente? Eu também me amo. E de puro amor chamavam-se uns aos outros de rabanetes, amavam os rabanetes, mordiscavam-se e, de puro amor, um rabanete mordia o rabanete do outro. E contavam uns aos outros exemplos de maravilhosos amores celestiais, embora também terrenos, entre rabanetes, e pouco antes de morder sussurravam-se mutuamente, alegre, famélica e categoricamente: Dize-me, rabanete: tu me amas? Eu também me amo.

Mas, depois que por puro amor tinham arrancado a mordidas os rabanetes e a crença no homem do gás tinha se convertido em religião do Estado, já não restava no armazém, após a fé e o amor, que já tinham tido sua vez, senão o terceiro artigo invendável da Epístola aos Coríntios: a esperança. E enquanto continuavam a roer os rabanetes, as nozes e as amêndoas, esperavam que aquilo terminasse logo, para poder recomeçar a esperar ou para continuar esperando, depois da música final ou então durante a música final que logo acabaria de se acabar. Ainda não sabiam bem o que ia acabar. Esperavam apenas que acabasse logo, que acabasse amanhã, tomara que hoje ainda não, pois que seria deles se aquilo acabasse de repente? E quando aquilo se acabou de verdade, começaram em seguida a fazer do final um novo princípio cheio de esperança, porque, cá entre nós, o final é sempre um princípio, e há esperanças e todo final, mesmo no mais definitivo dos finais. Assim está escrito. Enquanto o homem esperar, voltará sempre a começar a esperar o final cheio de esperanças.

Eu, contudo, não sei. Não sei, por exemplo, quem se esconde hoje em dia sob as barbas do Papai Noel, não sei o que o Diabo leva em seu alforje, não sei como se abrem e fecham as chaves do gás; pois volta a se difundir um ar de Advento, ou continua se difundindo ainda, não sei, talvez a título de ensaio não sei para quem estarão ensaiando, não sei se posso crer, oxalá possa, que limpem com amor as chaves do gás para que cantem não sei em que manhã, não sei em que tarde, não sei se as horas do dia têm algo a ver com isso; porque o amor não tem hora, e a esperança não tem fim, e a Fé não tem limites; só o saber e a ignorância estão ligadas ao espaço e ao tempo, e terminam a maioria das vezes a repetir: eu não sei, oh, não sei, por exemplo, com que eles enchem as tripas, que intestinos são necessários para preenchê-las, não sei com quê, por mais legíveis que sejam os preços do recheio, fino ou grosseiro; não sei o que está compreendido no preço, não sei com que recheiam os dicionários, assim como as tripas; não sei de quem é a carne nem de quem é a linguagem: as palavras significam, os açougueiros calam, eu corto vidros, você abre os livros, eu leio aquilo de que gosto, você não sabe do que gosta: fatias de lingüiça e citações de tripas e livros - e nunca chegaremos a saber quem teve de calar, quem teve de emudecer para que as tripas pudessem se encher e os livros pudessem falar, livros embutidos, apertados, de letra miúda, não sei, mas suspeito: são os mesmos açougueiros que enchem os dicionários e as tripas com linguagem e com lingüiça; não há nenhum Paulo, o homem se chamava Saulo, e, como Saulo, falou à gente de Corinto de algumas lingüiça prodigiosas, que chamou de fé, esperança e amor, e elogiou-as dizendo que eram de fácil digestão, e ainda hoje, sob algumas das formas sempre mutantes de Saulo, tenta impingi-las a nós.

Quanto a mim, arrebataram-me o vendedor de brinquedos e, com ele, quiseram eliminar do mundo os brinquedos.

Era uma vez um músico que se chamava Meyn e tocava trompete maravilhosamente.

Era uma vez um vendedor de brinquedos que se chamava Markus e vendia tambores de lata esmaltados de vermelho e branco.

Era uma vez um músico que se chamava Meyn e tinha quatro gatos, um dos quais se chamava Bismarck.

Era uma vez um tambor que se chamava Oskar e dependia do vendedor de brinquedos.

Era uma vez um músico que se chamava Laubschad e era membro da Sociedade Protetora dos Animais.

Era uma vez um tambor que se chamava Oskar e ao qual arrebataram o seu vendedor de brinquedos.

Era uma vez um vendedor de brinquedos que se chamava Markus e levou consigo todos os brinquedos do mundo.

Era uma vez um músico que se chamava Meyn e, se não está morto, continua vivendo hoje e tocando maravilhosamente o seu trompete.

178-180

[link de todos os trechos do livro]

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Corrida com arco-íris mas o joelho...

3,5km
14 de outubro de 2020

Geralmente eu escrevo aqui sobre como foi no mesmo dia da corrida.

Mas foi um pouco triste quando senti o meu joelho, por algumas vezes, interrompendo abruptamente a corrida sem mesmo conseguir diminuir a velocidade para não me machucar. Mas eu já tinha me machucado. E não foi por causa da corrida.

Um dia antes, eu estava fazendo funcional em casa e foi em um dos exercícios que eu me desequilibrei e forcei o joelho. Deadlift ou peso morto - aliás, um exercício muito bom. Doeu na hora, escutei algo parecido com uma maçã sendo abocanhada e senti meu joelho como se fosse uma maçã podre. 

Mas depois tudo normal. Continuei meus exercícios e tudo certo. A dor tinha passado. Pensei que não teria sido nada demais.

No dia seguinte eu fui correr. E o dia estava incrivelmente bonito. Havia chovido e o céu estava tão limpo que era de um azul vívido e ar puro. Ainda com algumas nuvens carregadas e um belo de um arco-íris no horizonte. Eu encarei aquele arco-íris até praticamente desaparecer. E eu pensei que o dia seria perfeito a partir dali.

Parei de repente a poucos metros com uma dor aguda no joelho direito. Alguém gritou "não pára de repente não", ou algo do tipo. Realmente, se eu pudesse eu não teria sequer parado. Mas a dor foi tamanha que não tive como escolher parar diminuindo a marcha. 

Dei uma alongada e voltei a correr. Mas a dor continuava. Eu insisti para continuar e fui em frente até onde eu teria ido na última corrida. E cheguei lá com muito esforço, muita dor e resistência. Parei de novo por causa da dor e alonguei novamente. Tentei voltar correndo e não consegui. Voltei quase não conseguindo caminhar. A dor não me deixava. E meus olhos se encheram de lágrimas, mas pensei: "não é o fim do mundo, ninguém morreu, tenha dó, é só uma dor".

Voltei triste. Eu poderia ter me superado. No dia seguinte, já também não sentia mais dor. Dei uns dias de descanso e fui correr novamente mas doeu da mesma forma, só que não dava mais pra continuar assim. Estou parada, com saudade de correr e de ortopedista marcado. Provavelmente farei uma ressonância magnética e fisioterapia.

Trilha:
Elvis Presley

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

um dia lindo :)

4,2km
05 de outubro de 2020

Um dia lindo.

Vi o Pinscher que anda de lado de novo. Eu acho que é uma fêmea. Dessa vez estava usando uma roupinha estilo flanela, xadrez, vermelha.

Eu acho que eu consegui controlar mais a minha respiração. Tou ficando muito boa nisso. Eu quero pesquisar mais sobre essa questão da respiração e entender exatamente o que acontece no nosso corpo e como isso pode beneficiar nos exercícios. Consegui fazer todo o percurso sem parar. Acho que falta pouco para fazer os 5km. Foi perto. Acho que hoje mesmo eu poderia ter feito.

O joelho estava doendo sim, mas em boa parte do percurso eu não senti tanto. Acho que senti mais no começo.

Fora isso, o dia estava muito bonito. Tinha muita gente para uma segunda-feira.

Relembrando meus objetivos:

Rumo aos 10km:
goal 1 - 5km ininterrúptos;
goal 2 - 10km com 2 paradas, no máximo;
goal 3 - 10km ininterrúptos.

Trilha da corrida:
Ramones

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

não sei se poderei chegar aos 10 quilômetros um dia


3,6km (2,6+1)
30 de setembro de 2020, às 16h

Já saí de casa na intenção de me superar. Quero aumentar cada vez mais a minha resistência respiratória e física para um dia correr 10 quilômetros - meu objetivo final. Foi desafiador como sempre. Mas estou um pouco receosa. Explico:

Há um ano eu recebi o diagnóstico do meu joelho esquerdo. Depois de uma corrida, eu senti o meu joelho e achei que fosse uma dor normal, qualquer, muscular e que iria passar em dois, três dias. Porém a dor não passava. Eu passei alguns meses sem correr e finalmente procurei um profissional para saber o que fazer e voltar às corridas.

Tive de fazer fisioterapia durante um tempo, cortei alguns exercícios que eu nunca mais poderei fazer, fiz exercícios de musculação para reforçar a musculatura, alongamento que eu devo fazer todos os dias para sempre e só depois de alguns meses é que eu pude voltar a correr. 

Super normal sentir o meu joelho durante e depois da corrida. E sempre faço alongamento quando eu chego em casa. Mas para ser sincera comigo mesma, não sei se poderei chegar aos 10 quilômetros um dia.

Talvez (e eu espero que sim), a dor seja mais notável porque não tenho ido à academia fazer o fortalecimento dos músculos. E obviamente que diminuí muito as atividades fisicas. Tenho feito em casa (praticamente todos os dias), exercícios de alta intensidade. Porém tenho me focado em definir a área superior. Até porque eu tenho muito medo de fazer certas atividades que poderão machucar ainda mais o joelho.

Não vou tirar conclusões precipitadas em relação à minha capacidade de atingir meu objetivo, porque toda corrida para mim é um grande desafio onde eu sempre me supero. Às vezes eu tenho medo de não aguentar, de vacilar as pernas ou até de passar mal por falta de oxigênio, mas eu sempre me supero e me surpreendo com o quanto pude esticar a minha resistência (principalmente respiratória).

Eu já falei aqui que a corrida para mim, assim como nadar no mar, é uma forma de meditação. Eu me sinto completamente renovada depois de uma corrida. E mesmo durante a corrida eu me sinto muito plena. Tenho certeza de que é um grande privilégio meu poder correr na orla de Olinda. Não por ser Olinda, mas porque eu posso ver as cores do pôr do sol no céu, o horizonte do mar, às vezes a lua, os pescadores, os barcos, os kite surfers, as aves planando no ar ou aquelas que estão planando sobre o mar para caçar um peixe, as ondas que se quebram com violência, os cachorros, as crianças brincando, os idosos ativos e tantas outras coisas incríveis da vida. Não tem coisa melhor do que se sentir em paz e pleno.

Hoje foi um dia particularmente especial porque eu revi dois amigos. E foi tão inesperado. Parece que o Universo tramou para que eu fosse uma pessoa mais feliz hoje. Porque eu também recebi uma proposta de ensinar inglês e vou ensinar o pouco que eu sei para duas grandes amigas. Além disso tudo, hoje é o aniversário de uma amiga do coração. Nos conhecemos há mais de uma década já. E o meu namorado está resolvendo suas coisas, finalmente.

O dia foi corrido duplamente. Mas eu não pude estar mais feliz. Tem sido difícil essa quarentena por vários motivos. Às vezes nem é culpa da quarentena, mas ela está inserida no período.

Que todas as corridas sejam uma forma de me sentir mais feliz, plena e inspirada!

Trilha:
Blind Melon - Blind Melon (1992) 

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

fui até a Praia Popular Filmada por Regina Casé e voltei

 


3,2km
17 de setembro de 2020, às 16h

Aparentemente eu fui até a Praia Popular Filmada por Regina Casé e voltei. [não sabia nem que Regina Casé tinha passado por aqui]

Dessa vez consegui fazer a minha média de quilometragem (o que eu fazia antes da quarentena). Saí de casa umas 16h dessa vez e agora acredito que este seja o melhor horário. Provavelmente não é um horário bom para encontrar uma orla com poucas pessoas. Mas eu gosto desse horário. À noite é péssimo porque não tem iluminação que preste nessa cidade. E pela manhã bem cedinho estou dormindo, muito obrigada.

Estamos saindo de quarto minguante e entrando na lua nova. Hoje a orla estava repleta de pescadores. O mar estava para peixe pelo visto, e bastante cheio - invadindo mais uma vez a pista. Mas já vi pior. Porém de fato a maré estava alta nesse horário e eu nunca tinha visto tantos pescadores na orla como vi hoje.

Mas estou muito realizada porque dessa vez não parei a corrida para alongar minha perna. E sim, meu joelho doeu como sempre.

Na ida, eu fui devagar como sempre. Estranhamente eu senti o joelho normal e comecei a pensar: "Pronto, agora são os dois!". Mas tentei dar umas esticadas na perna sem comprometer a corrida. Não imaginem como é isso e também acho perigoso fazer isso durante a corrida. Maaaaas eu fiz. Acho que deu certo.

De novo, estou atualmente focando na distância e não no tempo, então fui devagar mesmo.

Na volta, vento contrário. Ou seja, na ida o vento estava ao meu favor e não sabia. Mas o vento contrário torna a corrida mais desafiadora. Deu a impressão que eu estava correndo ainda mais devagar, mas acho que mantive o passo. No último minuto, no entanto, eu dei uma acelerada como eu sempre fazia nas corridas pré-quarentena. Muito feliz por isso. Ainda consegui ir um pouco mais além do meu ponto de partida, porém não contei essa distância (até porque ela é mínima e não faz a menor diferença).

Sobre as dores: senti bem menos que as duas corridas anteriores. O mais estranho mesmo foi a dor no joelho normal no começo da corrida. Mas acho que é normal pois não fiz alongamento e já tem dois dias que não faço alongamento, e nem me aqueci propriamente.

Hoje eu tive de tomar cuidado pra não atropelar um Pinscher que andava de lado. Ele estava usando uma roupa que dizia "I love my Daddy". Ou algo do tipo. Se cada piscada de olho fosse uma fotografia... Vocês veriam paisagens lindas. Eu gosto de apreciar o horizonte enquanto eu corro. Por isso gosto tanto desse horário.

Pensei agora naquele google glasses que tem uma câmera no meio. Mas aquele óculos é feio, caro e não tem grau. Não sei nem se existe mais. Vou pesquisar...

Queria pontuar uma coisa: eu corro com mp3 e nenhuma tecnologia ou app que eu possa fazer a rota, distância, tempo, batimentos ou calorias. Quando eu tiver condições, terei um relógio que me dê essas informações. Mas por enquanto isso não me é importante.

Trilha sonora:
Jack Johnson (in general)

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

mesma rota

 


1,4km + 1,4km = 2,8km
09.09.20

Hoje foi exatamente a mesma coisa que a corrida anterior.

Porém senti mais dor (principalmente na panturrilha). Não sei se tem a ver com o exercício de agachamento lateral que eu fiz na noite anterior (provavelmente sim). Mas parei pra alongar e deu uma aliviada.

Eu fiz essa rota mais ou menos em 25 minutos. Fui bastante devagar para poder respirar bem, oxigenar e aguentar a dor.

[Não vou entrar no mesmo assunto sobre pessoas que usam perfume forte pra correr ou caminhar. De nada.]

Fui depois do almoço de novo. Esperei mais ou menos 1h30 pra fazer a digestão. Pra mim foi ok. Mas acho que próxima vez vou tentar almoçar cedo e fazer um lanche leve antes da corrida.

Resolvi dá uma meditada olhando as ondas do mar e o horizonte. É tão bom. Torna o dia mais especial.

Trilha da corrida:
Van Halen - 1984 (album)

domingo, 30 de agosto de 2020

"a gente vai traçando metas durante o caminho e persiste nelas" - 5 meses sem correr e aglomeração na orla

 

*Eu pesquisei a rota depois, então eu não sei em quanto tempo eu fiz essa corrida,

1,4km + 1,4km = 2,8km
29.08.20

Minha última corrida foi dia 18 de março e só agora voltei a correr - cinco meses depois.

Foi como se fosse uma primeira vez. Apesar de não estar parada nos exercícios, correr requer outras resistências. Eu estava com muita saudade de correr mas não senti à vontade por conta da pandemia. Tive de ir a reuniões e quebrar o isolamento. Obviamente tomando todos os cuidados possíveis. Então me senti mais à vontade de fazer uma atividade ao ar livre. Infelizmente escolhi um dia ruim.

Sábado não é um dos melhores dias da semana em tempos de quarentena. A orla de Olinda estava cheia de gente. Tinha policiamento no local, muita gente sem máscara (e em grupo). E sim, muita aglomeração - palavra que eu nunca tinha usado com tanta frequência.

Eu estava sem máscara. Meu único objetivo era correr e tentar me manter longe das pessoas ao redor. Mas escolhi um dia ruim. Eu sempre corro mais ou menos no mesmo horário para correr - isso porque eu amo ver a paisagem rosada e o mar azul reluzente. Me sinto extremamente bem. É uma espécie de meditação pra mim. [Acho que já falei sobre isso].

Claramente eu estava fora de forma. A maré estava alta e, de onde eu comecei, a areia molhada estava invadindo a pista de cooper. Eu estava para caminhar para o lado oposto e voltar correndo. Mas vendo a areia, decidi seguir o caminho porque por ali não tinha esse tipo de problema de areia e água invadindo a pista.

Comecei a correr assim que cheguei na praia do quartel porque tinha muita gente e com certeza muitos maconheiros. Uma bela desculpa para dar partida.

Eu não tinha esperado tempo suficiente para digerir o almoço e estava pesada, arrotei algumas vezes e já saí de casa com sede. Ou seja, além de estar fora de forma, fiz tudo errado. Também não aqueci o suficiente, apesar de já ser uma caminhada ir de casa até a orla.

Parecia um dia normal sem pandemia. O que não me importei tanto, sinceramente. Meus únicos poréns de correr na orla é o cheiro de maconha e gente que usa perfume muito forte. Eu não consigo respirar quando sinto esses cheiros - me cansa demais.

Por falar nisso, me cansei rápido. Mas é aquilo, a gente vai traçando metas durante o caminho e persiste nelas. Então, assim que cheguei lá, tive de parar. Estava sentindo dores e muito cansaço. Achei que não fosse aguentar o caminho de volta. Um pouco antes de chegar na área do quartel, pensei que se persistisse demais, eu iria acabar desmaiando ou minhas pernas iriam vacilar até eu cair. Mas diminuí a velocidade e consegui fazer o mesmo percurso da ida, na volta.

Falando em velocidade, eu fui muito mais lenta comparado às corridas anteriores. Eu tive de respeitar o tempo que fiquei parada. Não tinha como forçar. Uma coisa que aprendi é ter mais paciência.

O resultado foi esse: fiz o mesmo percurso ida e volta - 1,4km. Total de 2,8km.

Músicas durante a caminhada e corrida escutei:
Alice in Chains:
[vai abrir tudo numa nova janela]
Don't Follow
I Stay Away (Caracas, eu nunca tinha visto o clipe. Massa demais, literalmente)
Love, Hate, Love
Them Bones
Man in the Box
No Excuses
Down in a Hole

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Sobre os contextos (GTD)



Se você ainda não conhece o método GTD, deixo minha recomendação para o conteúdo da Thaís Godinho - a musa brasileira do GTD e a leitura do livro “A Arte de Fazer Acontecer” (Getting Things Done), por David Allen.

Basicamente, nós temos muitas atividades para fazer e essas atividades têm contexto.
Por exemplo, você faz uma lista de coisas para fazer: lavar roupas, mandar um email importante para empresa, passar informações sobre a reunião para o colega de trabalho e deixar a pasta com ele, consertar o relógio do pai.

Perceba que você não poderá fazer todas essas atividades em um só lugar ou situação. Você vai lavar roupas na sua casa, você irá mandar o email se você tiver acesso ao computador, você só poderá fazer a terceira opção quando estiver no trabalho e você pode consertar o relógio quando estiver na rua ou no shopping.

Ou seja, cada atividade tem um contexto diferente.

Quando você tem acesso ao computador e estiver utilizando ele, você pode ir diretamente ao contexto “computador” e fazer todas as atividades relacionadas a esse contexto. O mesmo acontece com “trabalho”, “casa”, “rua’, “shopping” e etc.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Acordei com um passarinho na sala tentando achar uma saída

Saíra amarela

Já faz um tempo de quarentena.

Domingo pela manhã (umas 6h), acordei com um passarinho que entrou pela janela da casa e fui imediatamente ajudar o pássaro a sair. Eu peguei o pássaro com as minhas mãos. O pássaro escapou das minhas mãos e mais uma vez lutava para encontrar uma saída.

Consegui segurá-lo novamente. Era um passarinho lindo. Vi de perto. Era pequeno, amarelo com o rosto preto e asas azuis. Estava muito cansado, respirando ofegante, o bico aberto e vi até a língua. Alisei a cabeça e o tórax com a intenção de acalmá-lo. Ele era tão macio e delicado. Depois estendi meu braço para fora da janela com a mão aberta e ele continuou um tempo parado e senti suas patas segurando-se no meu dedo. E ele voou para baixo e depois deu o impulso e pousou na árvore à frente.

Esse momento eu não esquecerei.

Tive a sensação de que eu já tinha segurado um pássaro antes. Talvez sim. Mas aquele momento foi único. Foi mágico.

Eu pesquisei na internet para saber qual espécie era e acredito que se tratava de uma saíra amarela.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

História das Mulheres no Motociclismo

https://womenwhoride.tumblr.com/

No começo do motociclismo - no final do século 19 e começo do século 20 quando motos eram um pouco mais que bicicletas com motor embutido - norte-americanos compravam essas máquinas para transporte, não recreação. Famílias que não tinham condições financeiras para comprar carros, podiam ter motocicletas, então não era tão incomum ver mulheres pilotando.

Mas cmo a linha de produção da Ford, o preço do carro cai para metade em 1915 e em 1927 o preço da Ford quase se iguala a uma Harley-Davidson, mais carros vendidos que motocicletas.

Desde lá, motos se tornaram escolhas para recreação, principalmente por homens. Apesar disso, pilotos mulheres pioneiras incluem Augusta e Adeline Van Buren, Theresa Wallach e Bessie Stringfield - fizeram suas marcas no motociclismo mundial.

As irmãs Van Buren estavam entre as primeiras a rodarem costa à costa, viajando em uma Indian Power Plus em 1916. Elas também foram as primeiras a rodarem em veículos motorizados até o topo do Pikes Peak, realizando esse feito no mesmo ano.

Nos anos 30 e 40, Theresa Wallach da Inglaterra se tornou a mais conhecida por corridas e por pilotar longas distâncias, além de servir como piloto de despacho para o exército britânico durante a Segunda Guerra Mundial.

A afro-americana Bessie Stringfield fez 8 viagens solo de travessia nos anos 30 e 40, montando sua motocicleta na Deep South em um momento em que era muito arriscado fazê-la.

Enquanto isso, Dot Robinson rodou e correu nos anos 30, 40 e 50. Na verdade, ela é creditada como uma porta de entrada para mulheres em competições organizadas de competição.

Após a Segunda Guerra Mundial, um número crescente de mulheres se envolveu no motociclismo. Margaret Wilson foi uma delas: registrou mais de 550.000 milhas rodadas em motos, demonstrando que mulheres são tão apaixonadas pelo esporte quanto homens.

Na era moderna, Debbie Evans é considerada uma das mulheres mais famosas de Hollywood. Ela também foi pioneira na competição de testes observados, um esporte que exige perícia em um labirinto estreito, marcado e sinuoso de um percurso. Ela competiu com sucesso em testes norte-americanos no final dos anos 70.

Estas são mulheres que fizeram contribuições significativas para o motociclismo e que ganharam lugares no Hall da Fama da AMA Motorcycle no campus da AMA em Pickerington, Ohio. Há outras mulheres que fizeram suas marcas, como a campeã mundial de velocidade terrestre Ashley Fiolek, Leslie Porterfield, campeã mundial de motocross, que pode, um dia, ganhar seus próprios lugares naquele salão sagrado.

Fiolek começou a andar de miniciclos de 50cc aos 7 anos e iniciou sua carreira de piloto em 2008. Em seus cinco anos como profissional, ela ganhou quatro Campeonatos Nacionais Femininos da AMA e duas medalhas de Ouro nos ESPN X Games. Ela também é a primeira mulher a montar uma equipe profissional de corrida de fábrica. O que torna sua história especialmente notável é que ela é profundamente surda.

Porterfield detém três recordes de velocidade terrestre e é membro do clube Bonneville de 200 milhas por hora. Ela foi nomeada a AMA Racing Rider do Ano de 2008.

Há mais mulheres no motociclismo do que nunca. Mas toda mulher, desde a primeira vez que escorregou no assento de uma motocicleta até os Fioleks e Porterfields de hoje, contribuiu para o mundo do motociclismo.

https://womenwhoride.tumblr.com/

https://www.americanmotorcyclist.com/Story/women-motorcycling-history
Fonte: AMA - American Motorcyclist Associaton

Fiz alguns cadernos com esse tema e você pode conferir no instagram @patylavirpage

sábado, 21 de março de 2020

uma última corrida antes do isolamento - #coronavírus #quarentena


6km
18 de março de 2020

Eu amo correr, mas não faço isso com tanta frequência.

Passei quase uma semana sem treinar qualquer coisa porque não estava me sentindo muito bem. Uma espécie de azia. Além de duas eventualidades.

Então aproveitei essa semana como pude. A notícia do corona vírus foi se intensificando. A academia e o CT fecharam as portas.

Então na quarta-feira decidi fazer uma corrida antes de me isolar completamente. Confesso que no começo achava tudo isso desnecessário. Mas tratando-se de um vírus, pode ser muito difícil de controlar. Eu não tenho medo de pegar, eu tenho medo de passar para outras pessoas.

O movimento na orla até que estava intenso. Não sei se todo mundo pensou o mesmo que eu, mas tinha bastante gente praticando exercícios. Até alguns bares estavam abertos. Agora acho que não estão mais.

Não planejei com antecedência como ia ser. Na verdade eu nunca determino quantos quilômetros eu quero fazer. Às vezes eu até tento ter um objetivo em mente, mas eu não tenho como saber exatamente a quilometragem. Não ando com celular na rua. Geralmente eu só quero me superar mesmo.

A primeira corrida do ano foi a primeira corrida depois de meses, então não criei muitas expectativas. Mas dessa vez eu estava com disposição.

Um dia, eu quero ter resistência para 10km ininterrúptos. Mas por enquanto meu objetivo é chegar aos 5km muito bem, obrigada.

Comecei com uma pequena caminhada procurando um ponto de referência fácil para dar a minha partida. Escolhi o album Dirty do Alice in Chains para começar minha jornada. Depois que a primeira música do álbum terminou, o mp3 se desligou. Ainda correndo, coloquei de novo, agora na segunda faixa e o mp3 se desligou de novo depois. Então fui obrigada a fazer a corrida com um headphone sem escutar música alguma na porra do mp3.

Durante a corrida, já estava subconscientemente acordado o meu ponto de destino. Mas eu não fazia ideia se ia conseguir chegar até lá. E eu só ficava pensando: "Me alimentei tão mal que não sei se vou conseguir ter energia pra isso. Só espero não ter um treco. Que ao menos eu consiga chegar na metade do caminho para não passar vexame". Nesse caso, auto-vexame.

Mas deu tudo certo. Sempre é a mesma coisa: a cada passo, ofegante, a incerteza. Eu diminuí a velocidade logo no começo. Eu já corri mais rápido. Mas se eu não tivesse diminuído, eu não teria conseguido chegar onde queria. Agora lembrei que, bem quando eu era uma iniciante 101 na corrida, meu treinador de funcional da academia, Bruno, havia me dito que se eu diminuísse a velocidade da corrida, eu ia conseguir controlar mais a respiração e aumentar a distância.

Eu gostaria de ser um pouco mais rápida. Mas, por enquanto, eu só me importo em ter a distância como parâmetro.

Então, houveram momentos durante a ida que eu controlava muito bem a respiração e praticamente não sentia o esforço. Porém, em outros momentos, eu implorava para dar uma parada e tomar um ar fresco. Mas é aquilo né: foco, objetivo, foco, objetivo, superação.... A ambição vai mais longe. Eu acho.

Os cachorrinhos são os melhores momentos da corrida. A minha vista parece ter um ímã pra olhar os cachorrinhos que passeiam ou descansam na orla. De resto, eu só olho para frente para me desviar das pessoas. Ficar atenta para não colidir com ninguém, prever situações para me desviar com antecedência, dar espaço para outro corredor ou ciclista sem noção fora da faixa dele (dá vontade de empurrar e derrubar essas desgraças).

Eu saí um pouco tarde de casa. Ainda estava um pouco claro quando saí de casa, mas em pouco tempo escureceu. Nada de reflexos bonitos do pôr do sol. Na verdade, esse é um grande motivo para eu sair para correr. E me inspira tanto que dá vontade de dar uma meditada.

Então, na ida eu fiz 3,4km (segundo informações do google maps). Eu parei porque tive de parar. Meu tornozelo estava doendo, senti o início de um calo, muito ofegante (obviamente), joelho doeu um pouquinho. Então parei e voltei com uma pequena caminhada.

[Já que tinha parado, vamos ver se o mp3 volta a funcionar. Aí quando ligo, ao invés de estar na pasta do Alice in Chains, estava na pasta que eu tinha ouvido em casa horas antes - Amy Winehouse. Então descobri que meu mp3 não estava funcionando para Alice in Chains, mas estava para Amy Winehouse].

Dessa vez com música no headphone, já recuperada 30% (difícil dar um percentual), dei partida à segunda etapa da corrida - a volta. E lá estava eu correndo já à noite, pouquíssima iluminação, não enxergava muito bem o chão (se tinha algum coração negro para pisar ou buraco ou falha em que eu pudesse tropeçar).

E lá estava eu correndo para voltar em casa logo, lavar os pratos, cozinhar inhame, cuidar dos gatos...

Estava um pouco mais confiante na volta, apesar da falta de iluminação e também de me sentir uma obesa. Explico: minha perna parecia pesar cem quilos. Foi difícil, mas chegamos bem. Fiz mais 2,6km. Sobrevivemos.

Agora só Deus sabe quando é que vamos poder correr novamente ao ar livre.

Torcer para que acabe logo esse corona porque já estou com saudades.

Rumo aos 10km:
goal 1 - 5km ininterrúptos;
goal 2 - 10km com 2 paradas, no máximo;
goal 3 - 10km ininterrúptos.

Por enquanto é isso.

quinta-feira, 19 de março de 2020

1ª corrida de 2020

2,4 km

7 de fevereiro foi a primeira corrida de 2020 depois de meses sem correr.

Não que o problema do joelho tenha sido resolvido, mas ao menos controlado. Não tem como resolver, mas também não é o fim do mundo. Quando o médico recebeu o resultado da minha ressonância magnética e começou a me explicar o diagnóstico, eu fiquei bastante preocupada porque correr é uma das coisas que eu mais gosto de fazer.

Foi tempestade em copo d'água. E mesmo que fosse grave, não era o fim do mundo. Eu estaria sendo muito ingrata com o universo.

Nada que musculação e alongamentos não resolvam.

E agradeço muito ao ortopedista por ser honesto ao não me sugerir a cirurgia. A fisioterapia funcionou muito bem e agora é só me exercitar sempre para fortalecer os músculos, alongar e usar o tênis recomendado.

Fiz uma boa corrida, sem dores, feliz da vida.

[sobre a corrida que eu descobri o problema no joelho]

Logo após estarei postando sobre a segunda corrida, em tempos de quarentena.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

O Grande Gatsby - F. Scott Fitzgerald [trechos]


"Aprendemos a demonstrar nossa amizade a um homem quando ele está vivo, e não depois de morto. Quando isso ocorre, tenho por norma não me meter mais no assunto".

"Eles eram gente descuidada, Tom e Daisy: destruíam coisas e pessoas e, depois, se refugiavam em seu dinheiro ou em sua indiferença, ou no que quer que fosse que os mantinha unidos, e deixavam que os outros resolvessem as trapalhadas que haviam feito..."

[perdi os outros trechos]


Bonsai - Alejandro Zambra (trechos)


Julio sabia que estava condenado à seriedade, e tentava, obstinadamente, torcer seu destino sério, passar o tempo na estoica espera daquele espantoso e inevitável dia em que a seriedade chegaria para se instalar para sempre na sua vida.


Ambos tinham quinze anos quando começaram a sair, mas quando Emilia completou dezesseis, e dezessete, o lerdo continuou tendo quinze. E assim por diante: Emilia completou dezoito, e dezenove, e vinte e quatro, e ele quinze; vinte e sete, vinte e oito, e ele quinze, ainda, até os trinta anos dela, pois Emilia não continuou fazendo anos depois dos trinta, e não porque a partir de então tivesse decidido ir diminuindoa idade, mas porque poucos dias depois de completar trinta anos Emilia morreu, e então não fez mais aniversário porque começou a estar morta.


Naquela mesma noite, Emilia mentiu pela primeira vez para Julio, e a mentira foi a mesma, que tinha lido Marcel Proust. No começo, ela se limitou a concordar: Eu também li Proust. Mas logo houve um grande silêncio, que não era um silêncio incômodo, mas expectante, de maneira que Emilia precisou completar a história: Foi no ano passado, não faz muito tempo, levei uns cinco meses, andava atarefada, você sabe, com os trabalhos da faculdade. Mas me propus a ler os sete tomos e a verdade é que esses foram os meses mais importantes da minha vida de leitora.
Usou esta expressão: minha vida de leitora, disse que aqueles haviam sido, sem dúvida, os meses mais importantes da sia vida de leitora.

Em todo caso, na história de Emilia e Julio há mais omissões que mentiras, e menos omissões que verdades, dessas verdades que são chamadas de absolutas e que costumam ser incômodas. COm o tempo, que não foi muito mas o bastante,trocaram confidências sobre seus desejos e aspirações mais íntimos, seus sentimentos desmedidos, suas breves e exageradas vidas. Julio confiou a Emilia assuntos que só o psicólogo de Julio deveria saber, e Emilia, por sua vez, converteu Julio numa espécie de cúmplice retroativo de cada uma das decisões que ela havia tomado ao longo da vida. Daquela vez, por exemplo, quando decidiu que odiava sua mãe, aos quatorze anos: Julio a escutou atentamente e opinou que sim, que Emilia, aos quatorze anos, estava certa, que não havia outra decisão possível, que ele teria feito o mesmo e, claro, se na época, aos quatorze, eles já estivessem juntos, ele com certeza a teria apoiado.


"Tantalia" é a história de um casal que decide comprar uma plantinha para conservá-la como símbolo do amor que os une. Percebem, tardiamente, que se a plantinha morrer, morrerá com ela o amor que os une. E como o amor que os une é imenso e por nenhum motivo estão dispostos a sacrificá-lo, decidem fazer a plantinha se perder entre uma multidão de plantas idênticas. Depois ficam inconsoláveis, infelizes por saber que nunca mais poderão encontrá-la.


Você escreve à mão? Ninguém escreve à mão hoje em dia, observa Gazmuri, que não espera Julio responder. Mas Julio responde, responde que não, que quase sempre usa o computador.
Gazmuri: Então você não sabe do que estou falando, não conhece a pulsão. Há uma pulsão quando você escreve no papel, um ruído do lápis. Um curioso equilíbrio entre o cotovelo, a mão e o lápis.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Perdido de Volta - Miguel Gullander [trechos]



Eu não estou louco, apenas sou um viajante - e os aventureiros são imprevisíveis: num momento estão aqui, logo agora, estão ali.
O meu lugar preferido para viajar é até o outro lado do universo.
15

Queria estar em todo lado e com toda a gente ao mesmo tempo, - partilhando e bebendo do eterno momento que agora se desenrola, - podendo ter certeza, garantir a possibilidade de me cruzar com aquela única pessoa que me soubesse falar àquela alma que os meus amigos não acreditam existir - neste mar de gente, tempo, espaço, anonimato, esquinas -, queria encontrar, viver, aquele instante…
19

Esta é uma das coisas boas da Escandinávia: o não-existente ouro nazi permite-nos ser tolerantes, multiculturais, e trazer uma quantidade de coisas étnicas e interessantes, de outros lugares, para bêbados desempregados e solitários, como eu, entreterem as eternas noites do omnipresente inverno.
O inverno, compreenda-se, não é uma estação, é uma condição. Mental, mesmo.
20-21

Parecendo um pequeno paraíso encenado, um palco, esta praça onde nos encontramos está pronta para ser filmada e contar uma trágica história de amor e pirataria, despedidas e reencontros, - noutros tempos, em que as mulheres ainda achavam que, por alguns homens, valia a pena esperar uma vida inteira.
25

“Eh, moço, cuidado!”
“Parece besunto” explica entusiasmado o albino.
“Porquê este nome para a Hiace” pergunto eu, já a tirar o meu caderno do bolso de trás da Levi’s.
Ele olha desconfiado, mas interessado, o caderno.
“Gosto de me lembrar das histórias que aprendo com as pessoas” esclareço.
30

“Por mais falta de cumprimento de horário, de rota, - por mais desconhecido que seja o caminho - por mais desnorteado que pareça ser o destino, por mais perdido que se esteja, esta carrinha acaba sempre por ir aonde a necessidade exige - acaba sempre por passar por ir aonde a necessidade exige - acaba sempre por passar onde é preciso. Recolhe quem deve recolher e até dá, por vezes, uma boleia - e, mesmo que ande perdida na noite, na chuva nos caminhos sem vivalma, - perdida, ela acaba sempre por regressar de volta onde pertence, a casa.”
32-33

Cada um de nós está no caminho de retorno, mesmo que disso não se dê conta. Pode andar perdido… mas é sempre -
Perdido de volta.
33

Para quem gosta de telenovelas, esto que vou contar não interessa para nada, pois, para começar, é uma história verdadeira, cujo enredo é simples e bruto demais para caber em 120 episódios bem esticados, bem narrados, falsificados - e nestas curtas páginas não vai haver nem final, nem solução, nem clímax. Consolem-se os que sabem de estruturas narrativas, porque não haverá artifícios trágicos, fáceis, estilo deus ex-machina a entrar cena adentro, palco abaixo, para resolver a confusão toda - o enredo da nossa vida - a para o qual eu não consigo descobrir desenlace. Isso virá depois, para quem souber esperar, tal como eu próprio estou à espera. Vai ser como a própria vida, e esse é o seu único truque dramático: ter acontecido mesmo.
35

Nas agências (sejam elas governamentais ou não, vai dar ao mesmo), para que elas funcionem, e prevejam ao máximo o imprevisível, é necessário ter todo tipo de amostras humanas, todo tipo de pessoas pertencentes a todos os tipos de versões da realidade - por isso, por cada fez profetas do tsunami e do efeito de estufa, daqueles que dizem que os níveis de CO2 vão elevar os mares 28 metros, eu conseguia encontrar vinte gajos que demonstravam o oposto. Portanto, enquanto os ambientalistas, comedores-de-saladas, se arrastam nos seus carrinhos-de-choque, com um motor eléctrico e um motor a gasolina (tendo, faça-se a aritmética, gasto o dobro dos recursos industriais para produzir tamagoshis-a-rodas, estilo Toyota Prius) - enquanto eles poluem com a sua gasolina verde, eu rasgo os semáforos, turbo a esguichar napalm pelo cu-de-escape, até que a catástrofe chegue. E nada farei para a impedir. Pelo contrário.
Numa parede junto à biblioteca de Oeiras está escrito: “Queremos um tsunami!” Eu também queria um. Eu queria que uma baleia gigante entrasse por este mundo adentro, este meu mundo - e me comesse vivo.
37

“Existe uma queda, em círculo, para dentro dum espaço fechado, quando a planta te entra no corpo. O ponto de fuga, aquele sítio inexistente, para onde és atirado, é uma cela cujas paredes estão entorpecidas, anestesiadas - e como não as sentes, não as vendo, iludido pensas não existirem.”
45

Connosco sentados à sua volta, tirava notas no seu computador portátil. Odiava tocar em canetas ou papel. Tudo digital, abstracto, frio, como ele próprio.
“Então aí nessa terra…” e dirigia-se a um dos agentes de um dos países onde, em breve, o banco iria fazer propostas para a Educação. “Eles são religiosos?... Ah, não? Então vou dizer-lhes que a Educação contribui para um espírito laico da sociedade…” escrevia no computador.
“E no seu país? O que viu?” apontava para mim. “...Ah, ok, são religiosos, então vou dizer que a Educação contribui para um aprofundamento dos valores universais e tradicionais. Vou dizer que qualquer cultura, tendo como pano de fundo uma estrutura ética, deve dar atenção à sua organização educativa e… E as gajas de lá? É minimamente liberal?... Está bem” e escrevia mais. “Vou acrescentar assim ao de leve que, sim, a Educação contribui para uma maior consciência social, sexual. Contribui para a emancipação profissional, sexual, blá blá, o que nós bem queremos é que façam menos bebés e passem menos sida.
51

Porque para se falar de ser mulher tem de ser uma. Enquanto que para se falar de homens é simples: basta simplificar.
57

piropo - 58

Mais duro do que o dos homens, o nosso caminho, como mulheres, exige mais realização - um homem pode ser considerado homem apesar de nada ter feito além disso mesmo, de ser homem. O que não quer dizer muito. Mas uma mulher, para se sentir mulher, precisa de muito, precisa se mover em muitas coordenadas e dimensões diferentes - da orgânica à social. E a sua guerra, a sua luta, como todo o reino do mundo natural o demonstra, é implacável. Tudo passa por nós, mulheres: não há ser humano que não tenha, literalmente, passado pelo útero e alma duma mulher. Somos leoas quando mães, somos louva-deus quando amantes, somos viúvas-negras quando despeitadas.
59

“Inteligência!” gritam prontamente os alunos.
“Exactamente!” exulta ele. “Inteligência, etimologicamente provém de suas palavras latinas combinadas: ‘inter’ mais ‘legere’. Entre mais ‘ler’. Ler-entre. Ler entre o quê?!”
“Ler entre as linhas!” rejubila perante a congregação o professor. “Para se descobrir a verdade é preciso ler nas entrelinhas, para lá do visível, do explícito. Porque a verdade nunca pode ser dita, nem a beleza mostrada: ela é eminentemente subjectiva - não está no objecto, mas sim no próprio sujeito. É, portanto, preciso captar o invisível, o que não está escrito - o implícito. A inteligência é ler, apreender intuitivamente, isso que está nas entrelinhas, entre as letrinhas pretas. É essa a grandeza da poesia: o que de vosso descobrem, para lá do dado pelo escritor. A beleza encontrada é vossa - o invisível para lá das palavras. O texto, a palavra, é apenas como um dedo que aponta a lua. Esse dedo nunca é a própria lua. E se vocês forem para lá, olhando para além, descobrem nas entrelinhas o que não pode ser dito por palavras. E esse milagre, essa beleza é só vossa, são vocês mesmos - esse milagre, essa beleza…”
66-67

“Toda a gente fecha os olhos e ao som das diferentes músicas que vou tocar, dançam com a caneta pelo papel. Não se inibam, sintam-se livres, pois vocês são livres!” e falando de liberdade o professor já estava a predeterminar o curso dos eventos.
67

E depois ele fá-los misturarem as frases, combiná-las do modo mais improvável e usá-las como a primeira linha dum novo poema: “Um cálice de Deus que me permite sonhar com os teus passos”; “A máscara negra da Deusa Raiva”; “O espelho, sempre a dúvida: eu ou ele?”; “Depois do sabor, a morte não é nada”; “E ainda há um cheiro a folhas molhadas no ar”....
E estranheza de algumas frases imediatamente serve de gatilho, faz disparar poemas inteiros vindos do inconsciente.
68

Os elementos da fila de trás olham-se entre si. Seria esta fonte da famosa rebelião dos alunos? Seria esta a causa da agressividade destes adolescentes, mal habituados, que agora exigiam aos outros professores que lhes dessem aulas onde pudessem “mostrar o que sentiam” e “criar”, utilizando ferramentas passadas, para as suas próprias mãos, pelos professores? Pelo visto este professor dava-lhes liberdade para se exprimirem, mostrarem o que sentiam por de dentro - mesmo o horrível - desde que obedecendo a sistemas de regras. Liberdade total, mas dentro de sistemas de regras, neste caso as da literatura e poesia. Metiam os ossos, o tutano e a alma ao papel- e descobriam a sua própria voz interior. Como quantificar, avaliar, dar nora a revelações destas?
69

...mais vale morrer de pé, do que morrer de joelhos.
70

O hexagrama foi construído. I Ching, o livro das mutações: seis moedas atiradas, jogadas, e um destino, um trilho, um naco de estrada é revelado
[...]
O Abismal Duplo, hexagrama número 29 do I Ching. Ele lê rapidamente, apressado, e capta, soltas, as seguintes frases:
“Este hexagrama significa o mergulhar (...) como água numa ravina. No mundo dos homens, representa o coração, a alma aprisionada dentro dum corpo o princípio da luz encerrada dentro da treva. O nome do hexagrama tem um sentido adicional, repetição do perigo”.
81

“Duplamente perdido - estou perdido em mim e de mim, de mim e do outro, de ambos, as minhas duas metades, cindidas, estamos perdidos um do outro. Ambos estamos perdidos” murmura ele do escuro.
[...]
“Por um deles segue o coração - pelo outro a mente” diz a outra voz do outro lado do cubículo. “No segundo caminho as dúvidas nunca cessarão, pois a mente, essa metralhadora, nunca se cala, e a sua pergunta principal é sempre o que teria sido se tivesse seguido a outra direcção? Por isso, tu segues por esse caminho”.
[...]
“O hexagrama transforma-se num outro: o do Viajante. Eu seguirei por esse lado da bifurcação” diz ele, quase em surdina. “O oráculo não se ficou por um só julgamento Temos de cumprir o segundo também.”
82

O Viajante, hexagrama número 56 do I Ching. Ele cita-o para o outro homem:
“Terras estranhas e separação são o destino do viajante. A estrada é a sua casa.”
83

Noites intermináveis, a noite dos subúrbios de Lisboa, do tamanho da solidão que sentem dela, o inominável espírito montador, grande amazona, que levas os putos à tua procura por todas as garagens, becos e subterrâneos onde os rituais de música, de metal cromado e negro, pesado-pesado, violam virgens como nós.
86

Duro, cheio de sede - vagabundo, passou a não ter outra cama além do solo, nem outro telhado além das estrelas.

O acto físico, visível para o olho, é apenas e sempre uma confirmação no plano material, de algo que já aconteceu no plano da Alma. Não é preciso chegar a dormir com uma mulher para já ter cometido adultério no coração, basta fantasia.
108

“A estrada, doce donzela negra, a minha preferida, faz-me deixar todas as outras para trás. E a estrada, esta sede de liberdade, é de todas as escravas a única que me tem cativo - sou escravo desta vontade de liberdade, da tua pele negra, asfaltada entre cada implacável relâmpago ritmado do tracejado da auto-estrada.”
109

“Como vieste aqui parar?” pergunto à imagem pairando no espelho. Onde está a Cidade do Fogo Pálido, a Praia das Mil Ondas? Onde está esse lugar que procuro como maná? O rosto não demonstra qualquer emoção, pois sabe que não vale a pena antecipar qualquer resposta. Ela não existe, o que iguala a dizer que a resposta é: destino.
125

Depois contou alguém (já sempre alguém que conta qualquer coisa) que uma das miúdas entrou em pânico - desmaiou, disse que viu uma cara a espreitar da água, mas afinal era apenas uma máscara que viera a boiar, de muito longe, e que nunca afundara. Nada de especial.
131

“O que sobra da pessoa é uma casca, da espessura da madeira que se lhe colou à cara, donde ecoa o grito de todo o sofrimento universal. O testemunhar desse horror, reflectido no rosto da vítima sacrifical, enche todos de enorme piedade, compaixão. A visão do horror puro desperta o desejo de, finalmente, transcrever o mal e o sofrimento. Ver o poço de todo o horror faz aspirar pelos céus.”

De novo me lembro que, para os nossos sábios gregos, a iluminação, a descoberta da vida eterna, era o resultado do reconhecimento, da anamnese - o contrário da amnésia.
134

“Muito disto foi também trazido nos barcos dos portugueses” diz o irmão do dono. O outro irmão do dono ri, e o outro irmão do dono dá-me mais um chá.
Assim compreendo essas anacrónicas figuras que chegaram em caravelas de violência, aventura e ousadia - compreendo a figura branca de uma virgem cheia de graça -,mas não ouso compreender a outra que me fita com tanta raiva - a máscara negra duma deusa cheia de raiva.
“Uma pessoa não deve ser dono de uma máscara de quem não conhece. O teu amigo não sabe quem é o espírito, a quem essa máscara pertence” e agora falavam para o tribal.
Claro que não, claro que não.
135-136

...isso é ser velho: é ter-se um futuro muito mais curto que a memória do passado - e essa memória, em comparação à doce expectativa que a vida promete quando se é novo, essa memória não vale nada, não sabe a nada, é um deferido, sem a intensidade da actualidade, do Presente activo - sem a expectativa, a surpresa da vida. Para mim já não há surpresas. Entre todas as que já esgotei, a única que me resta é a morte.
148

A eterna e universal Fome - a carência de comida, de Justiça, de Amor, e muito especialmente, de Tempo. Pode-se redimir quase tudo com o dinheiro, que finge comprar quase tudo, comida, justiça e - ah! o amor - o dinheiro que compra tudo, menos o Tempo.
189

O teu tempo está a terminar, e ainda não a encontraste, pois não? Não encontraste aquilo que procuras, e perguntas-me o como? Como? Mas não há como!
190

Existe algum desacordo acerca do que acontece após a morte, excepto que, para todos os outros, a vida continua - até que eles próprios morram. Concordas?”
194-195

“...Tal como um sonho começa em certo ponto durante o sono, também ‘em certo momento’, aquilo que Eu Sou surge como consciência, aqui, e este mundo começa a existir. Eu abro os meus olhos - experimento a vida neste corpo-mente aparente. Depois de um período de experiência, Eu fecho os meus olhos - o mundo cessa, e não-nascido, para sempre Eu -”
195

“De entre todas as coisas” diz ele. “Gostaria de atravessar o deserto sob estrelas.”
211

...a quem a liberdade já não interessa, pois já não se sabem prisioneiros.
212

Todas as almas perdidas, sedentas de outra oportunidade nesta vida, são atraídas pela paixão entre um homem e uma mulher, dedilha ela no ar.
217

Existe um limbo, um espaço intermédio, onde vão parar todos os espíritos perdidos, em potência, mas que foram recusados à vida - que não foram queridos pelos pais. Crianças que foram concebidas numa raiz de furor ou indiferença, e depois foram colhidas antes de saírem para a luz.
[...]
Eu vejo esse limbo, esse planeta abandonado, cheio de crianças que ninguém nunca amou, perdidas, em busca de saírem para a luz, em busca de quem as ame, as guie, as eduque, as conduza à maturidade - e agora andam perdidas, rondando os quartos arfantes deste mundo, atraídas para os prostíbulos, os vãos de escadas, as casas de banho dos centros comerciais -perdidas, testemunhando em desilusão toda a semente desperdiçada, todo o terreno desbaratado, os baldios inférteis e as colheitas ceifadas antes da hora de darem grão, de darem fruto. Um planeta onde se salgam colheitas e a fruta fica a apodrecer, ainda raquítica, pelos cestos de lixo dos hospitais.
219-220

...é um planeta abandonado, um limbo de seres que nunca conheceram o amor e que acumulam toda a ignorância, todo o desprezo, toda a futilidade dos nossos actos - este planeta é o caixote de lixo da nossa casualidade....
220

“Tu tens os olhos em mim, mas o teu coração está com outro” gracejo sem sequer perceber, sentir as verdades que me saem da boca. Como uma síndrome de Tourette.
222

Visualizo as palmeiras, a sombra sob elas e as ondas ígneas, enormes e picantes de oxigénio, com plâncton mágico e fluorescente - gente boa e doce ao meu lado.
....
Olhos que rasgam a ignorância e vêem a divindade em tudo.
226

Ezili toda toda à volta da árvore. A árvore, milenar, demora a ser contornada em todo o seu diâmetro. Ezili roda-a, com a sua mão percorrendo um anel, toda a sua casca - que já tantas eras, tantas gerações de mulheres e homens testemunhou nascerem e morrerem. As cinzas de muitos são agora parte integrante do seu próprio corpo. A mão acaricia o tronco, fazendo um anel.
229

...sente no ferro a memória daquele que numa encruzilhada separou caminhos, e espetou aqui a faca para tentar descobrir o caminho de volta.
Neste ponto, ele dividiu-se de si mesmo, percebe Ezili segurando, firme, o cabo da faca. Como gémeos siameses, cindidos à faca, agora cada um com a sua vida, e esta faca é o único elo que tem para saber como o outro está. Faz sentido, este gémeos são como a humanidade cindida - a mesma Alma, perdida num abismo duplo.
230

...é preciso ouvir o coração para saber encontrar o caminho nas encruzilhadas.
232

A árvore range, suspira, ondula, e emana perfume. As suas raízes bebem, do lugar negro, do lugar dos sonhos e votos perdidos - que se diluem na clorofila entre os verdes - e suam-se em incenso, gotículas de seiva, orvalho vivo.
A árvore toca, com um ramo, o solo. É a sua bengala, pois Atibon Legba é uma anciã - ela sopra, por entre o vermelho dos seus frutos e flores, a seguinte melodia vibrante.:
“Para alguém numa longa jornada, como a de quem aqui espetou essa faca, eu, Atibon Legba, a árvore dos caminhos, sou o espírito da justiça, que liga os loa aos humanos. Eu abro os portões por onde tudo e todos devem passar.” Inclinando um pouco o seu peso sobre a bengala, Atibon Legba gosta de falar com a menina. “Lembra-te, pequena Ezili, que qualquer encruzilhada é um local do maior, pois todas as direcções, excepto uma, estão erradas.”
233

...os pássaros nas suas rotas migratórias, as terras distantes, as sementes voadoras, os jovens poléns, e as franjas dos ventos que se abraçam por todo planeta…
234

A fada azul, o feiticeiro drogado…
...mão direita - para curar - como com a esquerda - para envenenar…
241

O que já foi escrito abre caminho com a sua sereia de fúria e um olho, que a todo instante projecta numa nova rota no mapa desconhecido do inferno. O inferno reinventa-se a cada vez que nele pousamos o pensamento. Porque é algo que inventámos. Originalmente, bem vês, não existia. Tal como inventámos as câmaras de gás e os fornos.
253

quem planta ventos, colhe tempestades - quem pelo ferro mata, pelo ferro morre. Cada um colhe aquilo que semeia.
256

São ondas perfeitamente formadas mas não te podes distrair. Se és enrolado, vais ao fundo, e ficas em bife picado.
257

“E essa tatuagem?”perguntara-lhe eu apontando o semi-círculo em torno do umbigo.
“Esta sou eu” respondera ele com a surpresa de a quem é perguntado o óbvio.

“O Diabo não existe” sussurrei para mim mesmo.
“Então é porque nunca te viste ao espelho” ribombou ele, mesmo em frente à minha cara.
259-260

Ele levanta no ar o último copo de grogue, como numa saúde.
O acto físico, visível para o olho, é, apenas e sempre, uma confirmação, no plano material, de algo que já aconteceu no plano da Alma. Não é preciso chegar a dormir com uma mulher para já ter cometido adultério no coração - basta fantasiar. E no meu coração eu estava pronto para beber do cálice do ódio até à última gota. Sentira-lhe, já em fantasia, a sedutora textura metálica, o agridoce sabor a dor.
Ele esvazia o último copo de grogue.
A traição fora cometida.
269

Olhei para os meus passos na neve, atrás de mim. Agora, irreversíveis, consumados. Tinham-se cruzado com os de outras pessoas. “Olhando para o que já aconteceu é que se vê que tudo aconteceu como tinha de acontecer” pensei, tirando uma conclusão que, no fundo, não concluía, nem acrescentou nada.

Assim é o destino, como pegadas na neve, quando olhamos para trás vemos que, só aquele, e apenas aquele, foi o nosso caminho.
273

“Todos os que por aqui passam é porque estão à procura de algo, ou fugir de algo, o que vai dar ao mesmo”
“Todos estão à procura de algo. Uns querem experimentar a queda, ou a liberdade, outros procurar um amor pelo qual, literalmente, percam a cabeça, ou uma cidade cuja lei é o próprio querer,...
“Queres descobrir algo pelo qual valha a pena viver…”
“Não. Quero descobrir algo pelo qual valha a pena morrer - porque aquilo pelo qual eu vivia já não existe”
324

“Paradise Lost”
The mind is its own place,
and in itself can make a Heav’n of Hell
or a Hell of Heav’n
325

“Que encontres um amor de perder a cabeça e isso te inspire para uma história!”
326

Hiace Perdido de volta
331

“Aprender a estar quieto, sem fazer nada, é entrar, vivo e corajoso, no túmulo. E aí mesmo descobrir a liberdade de todo o cosmos”.
334

“O louva-deus” dizia a avó, que sentada na sombra observava os miúdos e o primo, para fazer o que tem a fazer tem de perder a cabeça. Assim também nas artes de vida-e-morte, tudo deve ser feito sem cabeça, só puro instinto e espontaneidade. Quando a cabeça entra - pensa, e estraga tudo.”
“E o que é que o louva-deus tem a fazer?” perguntou o rapaz por malícia.
“Fazer amor!” ri a velha divertida. “Para o macho fazer amor, a fêmea tem de lhe arrancar a cabeça. Para fazer amor o macho tem de perder a cabeça.”
O rapaz e a menina riem da explicação que queriam ouvir.

“...O louva-deus tem como sua missão sacrificar-se num acto em que ninguém dá, nem ninguém tira - apenas a própria vida, num fluxo e refluxo, inspira morte e expira vida - num simultâneo movimento de dança. A dança do louva-deus.”
335

“Levanta-te, Ezili” dizia-lhe o tribal. “Quando quiseres acertar na cabeça do oponente, não apontes à cara, mas sim à parte de trás da cabeça, à nuca, porque tu queres atravessar e o olhar do rastafari era doce.
340

sua decapitação será uma bênção.
341

o seu rosto era extremamente jovem, enquanto que o olhar estranhamente penetrante e maduro. Olhos transparentes, abismais.
367

“Nunca queiram ver uma velha chorar… Porque debaixo da casca de rugas e dor, reconhecerão a linda rapariga que a velha já foi, e a criança que não deixou de ser. E nessa criança, verão a vossa própria foto de criança.”
371

E eu quero colocar estas questões de modo sagrado - ars poetica - para tentar contribuir para a sanidade desta sociedade que cessou de fazer perguntas, de se sentar e ouvir o silêncio, ou de tentar sentir as palavras de outro irmão seu.
383

“As nuvens, pousadas no pôr-do-sol, levam-nos a pensar do horizonte” diz-me a miúda,
396

Tudo passara, como uma experiência, marcante talvez, mas que agora não valia mais do que uma memória, uma tatuagem cicatrizada sobre a pele.
416

A promessa, por exemplo, de nunca mais nos apaixonarmos por ninguém. Fiz essa promessa, como se a pudesse cumprir. Uma promessa que acabei de quebrar, pois não consigo controlar a quem amo.
422

Porque é que queremos testemunhar esta morte? Porque, mesmo sem saber os porquês, toda a morte é o desenlace duma qualquer história, e todas as tragédias valem por serem universos inteiros para quem os viveu.
473

“Nesta encruzilhada, pareces-te mesmo com o homem da dança” dissera a voz, que acrescentou: “Andaste perdido, mas agora estás de volta.”
Perdido de volta.
493


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O que é Psicologia? - Maria Luiza S. Teles [trechos]

Doenças psicossomáticas (distúrbios emocionais) que se refletem fisicamente no organismo, como é o caso da maioria das úlceras.
8

[...] No sentido etimológico, seria a ciência da alma ou o estudo da alma.
Foi a partir daí que os gregos começaram suas especulações. Achavam que todo ser humano possuía uma contraparte imaterial do corpo, de onde provinham os processos psíquicos, dos quais o cérebro seria apenas mediador.
9

René Descartes (1596-1650) - distinção entre corpo e mente.

Material - os organismos sub-humanos, que sofrem processos fisiológicos, como alimentação, digestão, circulação sanguínea, funcionamento nervoso, movimentos musculares e crescimento.

Mente - raciocinar, conhecer e querer.

Interação da mente com o seu correspondente físico - sensação, imaginação e instinto (impulsos para a ação).
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O empirismo inglês e o racionalismo alemão

A filosofia empirista enfatizou, pois, os papéis da percepção sensorial e da aprendizagem no desenvolvimento da mente. John Locke, empirista inglês, afirmava que a criança nascia com a mente como uma tabula rasa, página em branco onde a experiência e a percepção sensorial iriam inscrever todo o conteúdo.
Os empiristas ressaltavam o papel da memória e das associações mentais, para justificar a base sensorial do conhecimento.

Associacionismo, considerado por muitos como a verdadeira ruptura entre a Psicologia e a Filosofia.
11

Os racionalistas alemães, por outro lado, afirmavam que a mente teria o poder de gerar ideias, independentemente da estimulação sensorial. O conhecimento se basearia na razão e a percepção seria um processo seletivo.
11-12

Podemos afirmar, aliás, que, ao longo do século XIX, o que existe e é praticado nos laboratórios é uma psicofísica ou psicofisiologia, tamanha a confusão entre os princípios da Física e da Biologia e os estudos psicológicos.
O nascimento da Psicologia como disciplina autônoma só vai ocorrer, verdadeiramente, a partir de 1879, em Leipzig, com a criação por Wundt do primeiro laboratório exclusivamente dedicado aos estudos psíquicos.
A Psicologia passa, então, a ser considerada ciência, pelo simples fato de os cientistas a ela se dedicarem experimentalmente. Entretanto, não se fala ainda em comportamento, conduta ou ação.

A consciência - sede das percepções, ideias, sentimentos e motivos.

No início do século XX, com o aparecimento das chamadas escolas psicológicas: Estruturalismo, Funcionalismo, Behaviorismo, Gestaltismo e Psicanálise, ocorre um rompimento com o dualismo implícito na Psicologia, então definida como a ciência do psiquismo ou dos fatos da consciência.
13

Psicologia se preocupa com o Homem.
14

Homem - ser capaz de criar cultura, emocionar-se, perceber o que se passa com seus iguais e sentir com eles.

O Behaviorismo entende o Homem como sendo uma caixa preta, sua mente e psiquismo como inacessíveis ao estudo pela Psicologia. Os behavioristas resumem tudo em Estímulos e Respostas. Para eles, cada estímulo determina uma resposta específica.
15

O observador ser também humano- e conhecer a história e a cultura particular do observado - lhe permite penetrar nessa caixa preta, por um processo de identificação.
15-16

O Homem é um animal essencialmente diferente de todos os outros. Não apenas porque raciocina, fala, ri, chora, opõe o polegar, cria, faz cultura, tem autoconsciência e consciência da morte. É também diferente porque o meio social é seu ambiente específico, Ele deverá conviver com outros homens, numa sociedade que já encontra, ao nascer, dotada de uma complexidade de valores, filosofias, religiões, línguas, tecnologia.
19

Longos anos haverão de se passar até que o ser humano tenha condições físicas, intelectivas e emocionais para sobreviver em seu ambiente próprio. O animal é provido de instintos, o homem não. Por isso ele terá que aprender quase tudo.

instinto: uma série de atos repetitivos que levam a determinado fim.
20

O ser humano tem, portanto, reflexos, necessidades, impulsos, mas não instintos, pois, para atender às necessidades mais primárias, necessita de alguma aprendizagem. Ele tem o impulso de sobrevivência, a necessidade de alimento etc., mas para atendê-los precisa aprender. E vai aprender de acordo com os padrões correntes em sua sociedade específica e em sua família.
22

...o Homem não seria capaz de fazer cultura nem de pensar sem a linguagem.
A linguagem permite ao Homem legar o presente ao passado e antecipar o futuro.
Sem a linguagem, tanto oral quanto escrita, teríamos de estar eternamente recomeçando,...
23

Nossa visão de mundo, a maneira como vamos compreender a realidade estão estreitamente ligadas à linguagem. É através das nossas relações com os outros, em que a linguagem se coloca como fator primordial, que vamos elaborar nossas representações do que é o mundo.
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...temos necessidades físicas, psíquicas e sociais que nos levam a agir em busca de satisfação ou redução de tensão.
insatisfação, tensos, músculos se enrijecem e certas glândulas liberam determinados hormônios em nosso sangue.
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Quando este objetivo é alcançado, há a redução de tensão e, portanto, o relaxamento. Estado de equilíbrio que o organismo alcança com a satisfação da necessidade chamamos de homeostase.
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O Homem, um organismo biológico que, em contato como os outros de sua espécie, deverá tornar-se Pessoa, Gente, Ser Humano. Desenvolver um Self, que é a consciência de si, a capacidade de se ver e se analisar, de perceber o que o outro pensa e sente, colocando-se em seu lugar.

Além dos reflexos, o equipamento humano inato presume impulsos, necessidades, emoções básicas, mecanismos de resposta, capacidade de percepção, potencial intelectual, processos sensórios, memória, temperamento.
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É da interação Eu-Mundo que há de se formar a personalidade.
O Mundo implica uma série de regras, limitações, conceitos: (...) o Eu tentando preservar a individualidade e a Sociedade tentando impor seus conceitos e padrões.
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(...) reações que se apresentam como úteis, em determinado momento, para a redução de tensão excessiva, podem ser perigosas para o ajustamento geral do indivíduo. Daí pode surgir o desajustamento pois estas reações costumam tornar-se tão firmes como hábitos, que o indivíduos e torna incapaz de superá-las.
30

(...)o sujeito vai reagir ao mundo conforme ele os percebe.

O processo de desenvolvimento humano é um processo de ajustamento. Todos devemos atender a uma série de necessidades internas e, ao mesmo tempo, às imposições e limitações do ambiente, tanto social quanto físico. Em suma: o objetivo de todo comportamento é a aquisição de um repertório de respostas que nos permitam harmonizar as duas tendências.

Frustração é exatamente o contrário da satisfação.
32

...frustração por demora, por contrariedade e por conflito.
A frustração por demora é talvez a mais comum e aquela a que as pessoas se adaptam com maior facilidade. (...) a criança é quem mais sofre com ela, pois não tem ideia real do tempo e desconhece que a satisfação poderá vir em seguida.
A frustração por contrariedade ocorre quando alguma interferência, alguma barreira nos separa de nosso objetivo. (...) Este tipo de frustração é bem mais doloroso e difícil de ser suportado.
33

Frustração por conflito acontece quando nos vemos diante de duas exigências e só podemos atender a uma.
33-34

Agressão, agressão deslocada, regressão, fantasia, fixação, apatia e outros mecanismos de defesa costumam ser consequência de frustração, assim como o esforço intensificado, a mudança dos meios e a substituição do objetivo.
- agressão: o marido chega em casa com fome e, não encontrando o almoço pronto, agride verbalmente a esposa.
- agressão deslocada: o garoto impedido pelos pais de ver um filme, não podendo se voltar contra eles, bate no irmão menos por questão de somenos importância.
- fantasia: a moça que, não conseguindo conquistar determinado rapaz, passa, com frequência, a imaginar-se nos braços dele, em situações amorosas.
- regressão: a criança, já grandinha, que, por um fracasso na escola, volta a urinar na cama.
- fixação: alguém que com gritos conseguiu, em alguma ocasião, alcançar seu objetivo, repete sempre o mesmo comportamento toda vez que deseja obter algo, embora a estratégia possa não mais funcionar.
- apatia: um garoto, depois de repetir o ano várias vezes na escola, não mais se esforça no estudo e não se importa com mais nada.
- esforço intensificado: alguém que, tendo perdido um concurso, passa a estudar com mais afinco para o próximo.
- mudança dos meios: um macaco peleja para alcançar uma banana colocada a uma certa distância da jaula e não consegue; pega, então, uma vara e puxa com ela a banana.
- substituição de objetivos: a moça abandonada pelo noivo, que arruma outro namorado.
- racionalização: a maneira de justificar logicamente o que fazemos e aquilo em que acreditamos. Exemplos: "não passei no concurso porque as provas foram mal elaboradas"; "não dancei com fulano porque ele não me interessa" (sendo que ele nem tomou conhecimento da presença dela; este é o mecanismo das uvas verdes); "estou muito satisfeita por meu filho ter perdido o vestibular, acho que é bem melhor que ele trabalhe" (mecanismo do limão doce).
- compensação: a pessoa disfarça as fraquezas mediante o realce de uma característica desejável ou encobre a frustração numa área pela excessiva gratificação em outra. Exemplos: pessoa que, frustrada sexualmente, se compensa alimentando-se com exagero; o menino de constituição franzina que, não conseguindo sobressair-se nos esportes, dedica-se intensamente aos estudos e consegue ser o primeiro da classe.
- projeção: significa culpar outros pelas nossas dificuldades ou atribuir-lhes os próprios desejos não-éticos. É, portanto, uma forma de auto-engano, pela qual atribuímos a alguém nossas limitações, desejos, pensamentos indesejáveis e, inclusive, motivos e comportamentos que expliquem nossas atitudes. Exemplo: uma mulher desejava fazer um curso superior, mas nunca se animava a prestar o vestibular. Por fim, vivia se lamentando e dizendo que não havia estudado porque o marido nunca a incentivara.
- identificação: é a assimilação das qualidades de uma personalidade qualquer que possui o desejado, aumentando com isso o sentimento de valia própria. Exemplo: uma pessoa que se ressente com a pobreza procura imitar o comportamento de indivíduos de classe social mais abastada, sentindo-se com isto superior.
-fuga: mecanismo através do qual o sujeito evita a situação que pode provocar-lhe frustração. Exemplo: um aluno, despreparado para um exame, apresenta no dia marcado uma terrível dor de cabeça, que o impede de realizar a prova.
- negação: a pessoa se nega, sistematicamente, a enxergar a realidade dolorosa. Por exemplo: a mãe que, avisada de que seu filho usa drogas, não procura investigar e afirma com veemência que aquilo não é verdade.

É impossível viver sem frustrações. Entretanto, a frustração crônica pode ter efeitos bastante deletérios, como o abalo da saúde física. A frustração prolongada pode provocar distúrbios como úlceras, pressão alta, asma, erupções cutâneas, dentre outros.

Todo indivíduo tem determinado nível de tolerância à frustração. Sempre que ela ultrapassa este nível, desorganiza-se o comportamento.
34-37

Dependendo da natureza do conflito, o sujeito pode apresentar desde ligeira indecisão até bloqueio completo ou enorme tensão.

conflitos: teatro ou cinema? (duas opções agradáveis) amar alguém com gênio ruim (o objetivo é, ao mesmo tempo, agradável e desagradável) vender relógio ou não pagar aluguel? (as duas opções são desagradáveis).

Em situações de conflito ou frustração, o indivíduo tende a apresentar ansiedade.
38

Pode-se descarregar temporariamente a tensão psicológica mediante catarse, mas esta não resolve o conflito. As soluções a largo prazo, entretanto, dependem de se encontrar formas socialmente aceitáveis, evitando as valências negativas ou substituindo a valência positiva por outra menos ativadora de ansiedade.
A ansiedade é bastante semelhante ao medo e desencadeia as mesmas sensações físicas, como tremores, taquicardia, transpiração, palidez etc. O medo é reação diante de perigo real, objetivo, enquanto a ansiedade é sensação difusa diante de perigo imaginário ou oculto e subjetivo.
A característica principal da ansiedade é a impressão de que algo terrível e indefinido ameaça o indivíduo, algo conta o qual ele se sente impotente.
39

A ansiedade crônica ou prolongada é extremamente danosa ao organismo, provocando reações psicossomáticas que podem ser bastante significativas.

a ansiedade pode resultar em duas reações diferentes: depressão ou excitação, ou ambas alternadas. Há sintomas particulares somatizados: o corpo apresenta rigidez muscular, manifestada por movimentos secos e gesticulação sem fluidez; a respiração torna-se retida, tensa, superficial. Se predomina o sistema nervoso simpático, aparecem falta de apetite, digestão lenta, prisão de ventre; se o parassimpático, surgem apetite voraz, rapidez digestiva, compulsão alimentar. No primeiro caso, tendência à agitação, descontrole da imaginação, insônia; no segundo, apatia e sono exagerado. Em ambos os casos estão presentes as sensações de fadiga ou esgotamento.

A tensão excessiva pode causar temor, instabilidade afetiva, susceptibilidade, incapacidade para suportar o desagradável, incapacidade de concentração, pouco rendimento intelectual. O indivíduo se torna desanimado, indolente, ou se compensa no ativismo, apresentando instabilidade.
40

O conflito, a frustração e um certo grau de ansiedade fazem parte da dinâmica da vida. Entretanto, quando passam a ser uma constante (...) instala-se nele a neurose.

Nos conflitos neuróticos, as tendências contraditórias em ação não são reconhecidas, mas profundamente reprimidas; os fatores emocionais são racionalizadas e as tendências em ambos os sentidos são compulsivas, fortes, irresistíveis. Sendo os conflitos inconscientes, as tendências opostas reprimidas e as emoções sempre racionalizadas, torna-se então extremamente difícil, quase impossível, ao indivíduo resolvê-los sem ajuda exterior.
41

O indivíduo apresenta medos generalizados: de enlouquecer, de ser desmascarado, do ridículo, da desconsideração, da humilhação, de qualquer situação de mudança. Desperdiça muita energia, estagnando-se na ineficiência e na incapacidade de assumir uma atitude definida. Apresenta depressão crônica, passando a preocupar-se com o futuro, a morte, ideias suicidas e mostra desencorajamento, desalento, conformismo. Algumas vezes, revela tendências sádicas, com a escravização moral e psíquica de outrem, manejamento das emoções alheias, exploração e humilhação de outrem, tendência para depreciar (gosto de focalizar os defeitos dos outros), inveja e sentimento de vingança, sadismo revertido (espécie de masoquismo ou gosto pelo sofrimento).

Sentimentos de culpa são expressão de ansiedade ou de defesa contra ela. São, também, efeito do medo da reprovação. Mas por que o neurótico tem de reprovação? Em primeiro lugar, por causa da discrepância entre a fachada, que apresenta para si e para os outros, e as tendências recalcadas que jazem por detrás; em segundo lugar, porque quer esconder o quão fraco e insegura se sente; e, finalmente, porque, mais do que os outros, tem necessidade da aprovação alheia que significa, para ele, a segurança do afeto.
42

impedindo-o de viver uma vida normal e sadia.

Os sentimentos de culpa costumam manifestar-se através de auto-recriminação, sutil ou declarada; do medo de ser censurado; da necessidade de expiação através do sofrimento; do perfeccionismo;da hipersensibilidade em relação a qualquer desaprovação; da cautela para não cometer enganos; do refúgio na ignorância, na doença, na incapacidade e na posição de vítima.
43

Psicanálise - forte base na Biologia, mas abrindo perspectivas para um estudo mais amplo e centrando suas pesquisas no Homem.

Psicologia Transpessoal / Parapsicologia, à Física e à Psicobiofísica.
45

descoberta por Sigmund Freud, a psicanálise ... se fundamenta sobre a teoria do recalcamento (repressão de necessidades), significando, também, método de exploração do psiquismo humano e terapêutica para certas neuroses.
46

impulso ou motivo
47

Para ele, a personalidade é composta por: id, ego e superego - biológico, psicólogo e social.
id - impulsos primários.
ego - consciência, conciliador, solucionador, planejador. Busca o relacionamento com o ambiente.
superego - consciência moral, censor, normas, exigências, valores.
A atividade psíquica é consciente e inconsciente, sendo que a parte consciente não é senão a ponta do iceberg
48

Para Freud, a infância é a ápoca decisiva na organização da personalidade e é nesta fase que têm origem as neuroses e psicoses.
As frustrações intensas que ocorrem na infância, e os efeitos educacionais como a superproteção, a instabilidade, o controle rígido, a carência de afeto levam o indivíduo à angústia, agressividade, revolta, insegurança, timidez, dependência, irritabilidade, nervosismo etc., comportamentos estes que, por sua vez, motivarão outras formas inadequadas de contato com o ambiente.
Também os conflitos havidos neste período, determinando a repressão dos impulsos, podem produzir, mais tarde, a desintegração da personalidade. Eles não morrem, mas ficam dinâmicos no inconsciente.
É na infância que se adquirem os complexos, tendo importância básica o de Édipo (do menino) ou Eletra (da menina), que é a atração experimentada pelo genitor do sexo oposto, acompanhada de ciúme com relação ao outro. Este complexo pode ser resolvido com a identificação da criança com um dos pais (o do mesmo sexo). Este processo de identificação é importantíssimo para a futura vida amorosa do indivíduo.
49-50

O conflito é sempre um choque entre os desejos do id e a censura. A libido (forças da vida, busca do prazer) recalcada procura sempre válvulas de escape: sonhos, arte, cultura, sintomas neuróticos.
50

indivíduo saudável emocionalmente? ... criativo, amoroso, receptivo, perceptivo, decidido, capaz de verdadeira intimidade, verdadeiro, espontâneo.
51

Atualizar é tornar verdadeiro, existir de fato e não somente em potencial. Assim, auto-atualizar é aprender a sintonizar com sua própria natureza íntima. Isto significa decidir-se sozinho. A honestidade e o assumir responsabilidade de seus próprios atos são elementos essenciais na auto-atualização. Ao invés de posar e dar respostas calculadas para agradar outra pessoa ou dar a impressão de sermos bons, devemos procurar as respostas em nós mesmos. Toda vez que fazemos isto entramos em contato com o nosso íntimo.
Auto-atualização é também um processo contínuo de crescimento, de desenvolvimento das próprias potencialidades. Isto significa usar a inteligência e habilidades e "trabalhar para fazer bem aquilo que queremos fazer".
Um passo além na auto-realização é conhecer as próprias defesas e então trabalhar para abandoná-las. Precisamos nos tornar mais conscientes das maneiras pelas quais distorcemos nossa auto-imagem e a do mundo exterior através dos mecanismos de defesa.
Os humanistas acreditam que o homem tem uma potencialidade infinita para expandir-se crescer, realizar-se e que todo comportamento visa a este objetivo.
A tendência inata à auto-realização pode ser descrita como a tendência do organismo para reduzir as impulsões biogênicas (ou fisiológicas), tornar-se independente do ambiente, usar tanto quanto possível suas habilidades, criar e chegar a níveis mais altos de eficiência.
"Tornar-se pessoa" significa libertar-se das peias internas, tornar-se capaz de um contato verdadeiro (intimidade) com o outro, não fazer jogos, não usar máscaras, não se satisfazer com o simples ajustamento, mas tender a criar novas ideias e coisas, ser cooperativo, receptivo e amoroso.
53

E-R
associação entre estímulos e respostas.
54-55

A teoria de Pavlov é a do condicionamento clássico, em que um estímulo neutro, como o som de uma campanha, é sistematicamente emparelhado com algum outro estímulo, como um choque elétrico, que produz regularmente uma resposta forte e incontrolável da parte do sujeito.

Thorndike é a sua Lei do Efeito. Esta lei diz que a conexão entre um estímulo e uma resposta é fortificada quando a associação entre eles satisfaz o organismo.
55

Alimento, elogio, dinheiro, um balançar de cabeça e um sorriso são exemplos de reforços positivos. Reforço negativo, aquele que provoca uma resposta esquiva, isto é, o indivíduo evita determinado comportamento com medo da punição. Ex: um garoto que tirou notas baixas na escola é proibido pelos pais de ver televisão por um mês. O garoto, então, estuda mais para evitar o castigo.

Para que a punição seja efetiva é melhor dar uma resposta alternativa que resultará num reforço positivo.
56

A Psicologia Transpessoal parece surgir a partir de vertentes como o trabalho de Jung, os trabalhos de Einstein, dos físicos modernos, a Filosofia Oriental e as correntes de auto-realização.
57

o anormal está se tornando normal
61

neurose coletiva
empobrecimento afetivo
emoções violentas
total isolamento
dicotomia moral
Uma pessoa que perde a sua unidade, a sua integridade, a sua coerência, perde o eixo de si própria e não tem mais condições de funcionar como um ser humano.
62

sentimentos de culpa
inconsciente
alienação
realidade
fanatismo religioso e político
competitividade desgasta
cooperação
é triste ver que os próprios pais e a Escola, ao invés de incentivarem o espírito associativo e cooperativo das crianças e dos jovens, preparam-nos, desde cedo, para uma acirrada competição.
ideal consumista
63

decomposição do sistema capitalista
Não podemos aceitar que um Sistema em que já não acreditamos continue a determinar nossos comportamentos e reivindicações.¹
67

¹esse último parágrafo é o que define todo o viés político dos livros dessa coleção.