sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Entrevista: Cláudio Barreto sobre as décadas de 1960 e 70

Mais uma entrevista que fiz para uma matéria sobre nostalgia. Esta entrevista é com Cláudio Barreto Ferreira de 64 anos, servidor público federal que se interessa pelas décadas de 1960 e 70.
"na praia de Olinda, Bairro Novo, por volta de 1967, 1968, em que eu estava usando uma camiseta "Hyppie", com os dizeres: "Make love, not war", que era o principal lema contra a Guerra do Vietnã".
"Além da idade (pré-adolescência e adolescência), sem preocupações com trabalho, só fazia estudar, jogar futebol na rua (rua de areia, sem calçamento/asfalto com pouquíssimo movimento de carro; (a gente parava o jogo para deixar passar algum carro de tempos em tempos), brincar de vários tipos de brincadeiras, tais como: prendeu-soltou (pique ou pega-pega), carniça ou pula-sela, chupar manga trepado na mangueira, fazer balanço de corda nos galhos das mangueiras, pulando de cima do muro para alcançar e se pendurar na corda como se fosse Tarzã,
Brincar carnaval na rua, acompanhando troças carnavalescas, como a troça do boneco gigante "Seu Malaquias", jogar água da torneira do jardim (forte jato d'água) nos carros que passavam pela avenida, e à noite, dançar no salão de visitas de casa, ao som das músicas de Capiba, Nelson Ferreira, além de marchinhas de carnavais anteriores, tudo reproduzido numa vitrola ou toca-discos ou passa-disco ou eletrola, com discos de 78 RPM e LPs (long play).
Nessa época, quando se falava em ladrão tratava-se de ladrão de galinhas, que pulavam os muros dos quintais para roubá-las durante a madrugada.
Não havia televisão, e à noitinha, após o jantar, as pessoas se reuniam em frente de casa para conversar, brincar de roda, marré-marré, passar anel, boca-de-forno, e outras inofensivas.
No São João, sempre eram feitas fogueiras com galhos caídos das mangueiras e madeiras velhas de móveis etc. Sempre havia um dinheirinho para comprar alguns fogos de artifício mais baratos e fazer bolos de milho, canjica, pamonha, pé-de-moleque etc.
A turma se reunia para dançar quadrilha ou simplesmente forrozar até não aguentar mais de sono. As músicas também eram reproduzidas de LPs e discos de 78 RPM, em vitrolas automáticas ou não.
No Natal, sempre se recebia presente de Papai Noel, por mais simples que fosse, e se preparava uma ceia, mesmo sem muita sofisticação.
No período dos bailes de formatura, conseguia convites para participar em clubes como o Português, Náutico, Internacional ou Sport. Exigia-se traje formal, ou seja paletó e gravata. Então, muitas vezes era necessário algum amigo entrar primeiro e passar o paletó e a gravata pela cerca ou muro, fora das vistas dos porteiros para que os outros pudessem entrar no clube também, já que não era comum a gente possuir esse tipo de roupa.
Como eu havia recebido um terno para o casamento de minha irmã, estava livre dessas artimanhas. porém, como não tinha dinheiro, já que não trabalhava, só fazia dançar a noite toda, e quando sentia sede, pedia licença à garota com quem estava dançando e a conduzia para a mesa que ela estava ocupando com amigos(as) e/ou parentes, indo em seguida até o jardim do clube beber água na torneira (tempos felizes). 
Depois que foi comprado um aparelho de TV, acompanhei as apresentações dos programas de auditório da Jovem Guarda, que também marcou muito minha vida porque comecei a aprender a dançar (dança de salão de forma amadora, não profissional) por diletantismo".


uma Monark de 1965 [arquivo pessoal]

Como você descobriu o interesse por essas épocas?
Relembrando os momentos vividos naquele período, comparando com os anos posteriores.

Para você, o que mais caracterizou essas décadas?
A década de 60 foi caracterizada pelo movimento "hippie, guerra do Vietnã, assassinato do presidente dos Estados Unidos (John Kennedy), primeira viagem do homem à lua (1969), golpe de Estado no Brasil (1964), com implantação da ditadura militar, inauguração da primeira TV no Nordeste: TV Jornal do Commercio, canal 2 (1960).

O interesse por essas décadas te fez mudar alguma aspecto da sua vida? Alguma mudança no visual ou psicologicamente?
A década de 60 foi para mim, particularmente, a década de descobrimentos com a chegada da puberdade, começo das paqueras, preocupação com a maneira de me vestir, ou seja, procurava usar roupas da moda, como calças boca-de-sino, saint-tropez, camisas coloridas etc. comecei a experimentar cigarro para parecer adulto, mais velho, mais maduro, vício que foi se instalando e permaneceu durante uns vinte anos. Em meados de 1968 saí do Estado pela primeira vez para morar no Rio de Janeiro.
Perto de completar 18 anos, foi um fato muito marcante e que provocou em mim grandes mudanças psicológicas, pois foi também o período de incorporação ao Exército, onde servi durante pouco mais de onze meses e fiquei morando "de favor" na casa da família de um irmão mais velho.

foto tirada em 1963, no Parque 13 de Maio, numa exposição do Exército. [aquivo pessoal]
O que você mudaria mais para ficar mais perto dessa década?
Cheguei a um patamar da vida em que o passado é apenas para ser lembrado no intuito de se evitar cometer os mesmos erros, e manter ou repetir os acertos.
Quanto a mudar alguma coisa, já mudei ou evitei algumas mudanças, tais como: evito possuir telefone celular, não tenho carro (também não ando de "carona" ou "bigu" com outras pessoas), não frequento as salas de cinema atuais (muito ruins comparadas com as da década em questão).

Você ficou fascinado pela década porque ela condizia com a sua personalidade ou houve uma mudança após a descoberta da década?
Acredito que fui sendo levado pela onda, sem pensar a respeito, sem nenhum senso crítico, quase totalmente alienado pelos acontecimentos políticos, como a renúncia de Jânio Quadros da Presidência da República com a devida passagem do cargo para o vice-presidente João Goulart (Jango), afastado pelo golpe militar.
Penso que minha referência à década de 60 se deve principalmente pela minha idade na época. Idade de descobertas e de começo do sentimento de vida, de um pouco de independência não financeira, mas de locomoção e de escolhas diversas, além de uma liberdade permitida por meus pais e que procuro manter nos dias de hoje comigo mesmo.

Monóculo


Entrevista: A paixão pela década de 60

domingo, 23 de novembro de 2014

Entrevista: A paixão pela década de 60

A entrevista a seguir foi realizada para uma matéria (que já está pronta) sobre nostalgia. Essa matéria faz parte de uma edição do jornal da minha faculdade com o tema Mudança. Quando tudo ficar disponível, vou disponibilizar aqui no blog.

A ideia surgiu de repente quando lembrei do filme Meia Noite em Paris de Woody Allen onde o protagonista é transportado para a década de 1920 quando é badalado meia noite. Essa é a década em que o personagem considera a Idade de Ouro, ou seja, a época de maior ascensão.

Além dessa, foi realizada outras entrevistas, mas neste post só tem a de Krysalis Pires. Ela tem 24 anos, é professora de educação física e auxiliar administrativo. Krys é apaixonada pela década de 1960.
Arquivo Pessoal
Você mudou seu visual quando descobriu o seu fascínio pela década?
Sim, de certo modo a forma com que me visto mudou um pouco. Já me vestia, com alguns acessórios ou alguma roupa que caracterizava a cena da época, mas depois de começar a gostar mais e estudar sobre, comecei a procurar por roupas que caracterizam esta época.

O que você mudaria mais para ficar mais perto dessa década?
Os móveis da minha casa. Sou apaixonada pelas casas e objetos da época. Acredito que se a minha casa possuísse essa características seria como se eu voltasse no tempo toda vez que eu entrasse nela. Como se vivesse naquele tempo.

Como você adquiriu esse fascínio?
Já gostava das músicas e do cinema, isso já ajudou bastante. Mas o meu interesse surgiu após ir a um evento de cultura dos anos 60, a partir daí eu comecei a procurar mais sobre o assunto.

Pra você, o que mais caracterizou a década?
O que mais caracterizou a época foi a chegada do rock’nroll com Elvis Presley, que foi o maior símbolo da história. Os jovens mudaram sua forma de se vestir com jaquetas de couro, topetes, lambretas que demostrava certa rebeldia. E as mulheres, abandonando a saia comportada para calças como um grito de liberdade. Todo esse movimento jovem em busca de liberdade é o que mais marca a época.
Arquivo Pessoal
Quais foram as mudanças que aconteceram?
Com todo esse movimento em busca da liberdade, uma mudança notável foi na área da moda, deixou de se tornar uma moda única. As roupas mudaram radicalmente. Isso se dá a este processo onde a roupa estava diretamente ligada ao comportamento.

Quais foram as mudanças físicas e psicológicas que aconteceram?
Avanço na área da comunicação, mudanças políticas, busca por liberdade de expressão e liberdade sexual, mulheres buscando igualdade de direitos, mudança de hábitos, vestimenta, música, cinema, arte, chegada do homem a lua... Enfim são diversas mudanças que ocorrerão na época que mudou todo o modo de agir e pensar de uma sociedade.

Você ficou fascinada pela década porque ela condizia com a sua personalidade ou houve uma mudança após a descoberta da década?
Identifiquei-me com a época pois mostrava um pouco do que eu sou. Principalmente pelo meu gosto musical e pelo cinema e seus artistas como Elvis Presley, Johnny Cash, June Carter, Frank Sinatra, Marilyn Monroe, Audrey Hepburn, entre outros. O modo que eles viviam e suas histórias trouxeram fatos em que eu pude me identificar, fazendo o amor pela época crescer mais.

sábado, 12 de julho de 2014

Demian, a história de uma juventude - Interpretação pessoal

O texto a seguir é uma interpretação pessoal da obra "Demian" escrita por Hermann Hesse em 1917. Esse texto fez parte do debate do "clube do livro 2 caras" - grupo lá no Skoob e ele foi escolhido por mim, por sinal. A obra foi selecionada pela Revista Bula como umas das 10 obras que vão mudar a sua vida. 
É importante que você leia a obra para entender. Todos os links úteis estão no final desse post.


Acredito que a intenção de Hermann Hesse nesse romance era o de exprimir as reflexões dos jovens naquela época. Sobre a liberdade, as regras, D’us, existencialismo. E acho que ele conseguiu fazer isso em várias etapas.

A primeira foi a do reconhecimento quando Sinclair quer impressionar os seus ‘amigos’ e acaba se dando mal. E também o de experimentar algo proibido. E, por ser criança, em sua pura inocência, acaba se entregando às ameaças de Kromer e criando sentimentos que só um adulto em apuros teria.
“Muitos se recusarão a acreditar que uma criança de onze anos incompletos possa sentir dessa maneira. Não é para esses que escrevo, mas para aqueles que conhecem melhor o ser humano”.
Esse sentimento que em algum momento a criança irá sentir um dia pode ficar marcado e poderá influenciar em outras etapas da vida. Acho que o sentimento de insegurança e impotência e dependência façam parte disso. A falta de reconhecimento da própria existência, o querer ser quem não é nos pode levar a caminhos solitários.

A questão de negar a existência do Eterno também se torna presente em muitos jovens e foi assim com Sinclair. Mas um ser supremo deu lugar a outro e assim conheceu Abraxas, através de Demian. A negação da dualidade entre “luz e trevas”, “Deus e Diabo”, fez o jovem conhecer um deus mais homem, mais humano, sem dualidades e extremidades. Talvez fosse um escapismo de regras, responsabilidades e escolhas.

Para mim, Demian representa a busca insaciável pelo conhecimento. Mas quando se desprendeu dele, Sinclair encontrou um caminho desregrado da embriaguez. Quando encontrou Pistorius, o personagem que deu lugar à ausência de Demian. Demian suscitava nele interesse pelo conhecimento e pela reflexão. Mas só no fim Sinclair encontra sua autonomia intelectual. Quando Demian se vai, desaparece.


Sinclair teve de negar a educação que vivia em seu seio familiar para encontrar a sua própria educação e disciplina. É o que os jovens fazem. Mas ele tinha uma marca que o tornava especial, diferente dos outros.
E depois o orgulho de se sentir parte dos homens intelectuais, capazes de pensar, refletir e interpretar questionamentos da vida: 
“A descoberta de que o meu problema era um problema de todos os homens, um problema de toda a vida e todo pensamento, pairou sobre mim de súbito como uma sombra divina, e me senti penetrado de temeroso respeito ao perceber o quão profundamente minha própria vida e meu pensamento participavam da corrente eterna das grandes idéias”. 
E depois descobre um mundo de solidão e isolamento. Da qual posso dizer que é uma característica que a maioria dos intelectuais possuem quando não encontram a sabedoria e a plenitude.

"A ave sai do ovo, o ovo é o mundo.
Quem quiser nascer tem que destruir um mundo."

A minha interpretação era que a marca que Sinclair possuía (a marca de Caim) era um símbolo para a inclinação à sabedoria. Demian a busca, e Eva a sabedoria, a plenitude, a resposta para todas as perguntas.

Eu sempre acho que interpreto mal, até porque essa obra fez muito sentido na época. Apesar dela fazer sentido hoje, ela não tem idade. Mas a interpretação que deram na época fez mais sentido.

Fiquei por muito tempo pensando o que eu iria escrever desse livro. Ele não é fácil de se interpretar. Acredito que o próprio Hermann Hesse encontraria várias respostas e interpretações para ele. Vários sentidos.

Demian foi tão importante para Sinclair, assim como Gertrud foi importante para o protagonista. Como também foi assim em Sidarta. A aspiração de si sempre está no outro. Em um guia que tem alguma resposta que não se pode responder sozinho.


* * *



* Vale a pena comprá-lo. Está em algumas livrarias e inclusive, se você quiser mais barato, tem na Estante Virtual. A minha edição eu comprei lá.

sábado, 28 de junho de 2014

Illusions Perdues para não-jornalista ver

A minha edição da editora Seguinte tem tradução e adaptação de Silvana Salerno e ilustrações de Odilon Moraes (da qual vou falar mais adiante). O que acontece? Eu já tinha ganhado este livro de presente quando o avistei na Livraria Saraiva. A edição que tinha lá era da Penguin e fiquei (sem brincadeira) boquiaberta. Sim, a capa era linda*, mas não foi isso que chamou a minha atenção. O que chamou minha atenção foi a grossura do livro.  Fiquei encucada! Até porque a minha tem ilustrações e tem selo recomendável para o público infanto-juvenil.

Sobre as ilustrações eu não tenho nem o que falar. Nesse mesmo dia na livraria, eu encontrei uma edição linda da Cosac Naify do meu poema favorito com ilustrações de Odilon. Sim, o mesmo ilustrador do livro! E pra quem tiver curiosidade o meu poema favorito é Ismália de Alphonsus de Guimaraens. Eu curto muito o traço de Odilon Moraes. Não tirei fotos pois a capa já contém duas, mas as de dentro são maravilhosas e aconselho dar uma olhada nelas quando for à livraria.

* A ilustração da capa é de René Magritte em sua obra la reproduction interdite.

Ilusões Perdidas
Honoré de Balzac
223 páginas
Companhia das Letras, 2002
ISBN 978-85-359-0271-6
Edição da Penguin com os valores da obra em livro e e-book

David e Lucien

A gente conhece uma história que se passa em 1819; na cidade de Angoulême, no sudoeste da França.

Primeiro conhecemos um pouco sobre prensas (impressoras) - tipografias - mercado responsável pela impressão de jornais, convites, informes e etc. É aí que conhecemos Nicolas Séchard - um velho bêbado analfabeto, escroto (Lula), que só pensa em dinheiro.
"A tipografia de Nicolas Séchard imprimia o único jornal de editais do estado e todas as publicações da prefeitura e do bispado: três clientes que deveriam proporcionar grande fortuna a um jovem ativo¹".
A ambição de Nicolas era tão grande que ele vendeu a prensa para o seu filho por um preço exorbitante. ¹David, filho único, era tranquilo e não tinha ambições tão doentias quanto a do pai, então não se preocupava em bajular os clientes da Igreja e outros.

David reencontrou seu amigo de colégio e, pensando na dificuldade que a família de seu amigo estava passando após a perda do pai, David o chamou para trabalhar com ele.

Lucien Chardon tinha 21 anos, era poeta e pretendia ficar rico sem muitos esforços. Sua mãe começou a trabalhar como enfermeira e sua irmã Eve, em uma lavanderia. As economias eram investidas em Lucien para se tornar um rico e ajudar a família financeiramente - além de participar da alta-sociedade.

Lucien tinha um amor chamado Marie-Louise-Anaïs de Nègrepelisse ou somente Naïs (para todos ao seu redor) ou Louise (apenas para Lucien). Ela virou senhora Bargeton após casamento com um idiota, pois seu pai queria que ela se casasse com um homem "sem valor e grandeza" para manter o estado de espírito independente da jovem (mantivesse a liberdade). E que logo ela se tornasse viúva.

Naïs leva uma vida monótona até que um metido chamado Châtelet deseja se casar com a única jovem sonhadora e inteligente da cidade. Claro, após a morte de seu marido. Châtelet tem a ideia brilhante de apresentar um poeta da cidade para surpreender a senhora Bargeton e apresenta a ela o jovem Lucien. (lascou-se)

Ao invés da moça se interessar por Châtelet (o nome sugere uma de suas características) - ela se interessa pelo jovem Lucien e passa a convidá-lo para jantares, festas ou saraus.

A sociedade se revolta contra aquele absurdo (pobre frequentando casa de rico) - Lucien então sofre mas não desiste. Quer ser aceito e se tornar rico e amante da senhora Bargeton

Enquanto isso David percebe as besteiras das escolhas de Lucien. Acaba se apaixonando pela irmã de seu amigo - Eve. Eles vão se casar enquanto Lucien vai para Paris com Anaïs. Como isso aconteceu? Descubra lendo o livro.

Trechos dessa parte

"Por falta de acontecimentos e atividade intelectual, as coisas pequenas tornam-se grandes. Essa é a razão pela qual a pobreza de espírito e a fofoca dominam as cidades do interior" - página 36

" - Os deveres da sociedade tomarão todo o seu tempo, e o tempo é o único capital das pessoas que só têm a inteligência como fortuna. Ele vai gastar dinheiro sem poder ganhá-lo" - fala de David - página 62

o grande homem do interior é pequeno em Paris

Como havia previsto David, Lucien quebrou a cara com Anaïs. No interior, ela tinha personalidade forte; defendendo Lucien contra acusações. Mas em Paris ela o deixa de lado. Ela não tem personalidade própria e escuta os conselhos de todos em Paris.

Agora Lucien acordou para a vida e foi se hospedar num hotel mais barato e tenta vender um livro de romance e um de poesia. Foi aí que conheceu um amigo sensato e de bom caráter chamado Daniel d'Arthez - eles frequentavam a mesma biblioteca.

Lucien entra para o grupo de amigos de Daniel. O grupo se chama Cenáculo e eles são amigos de verdade. Não  existia inveja. Um inimigo de um se tornaria inimigo de todos. A amizade vai durar muito empo. O grupo inteiro trabalhou extra para ajudar Lucien quando seu dinheiro tinha acabado.

Depois de tantos conselhos de seus amigos, Lucien quer ser jornalista e continua lutando para publicar o seu livro. Pelo menos ele encontrou um jovem jornalista que lhe apresentou o diretor do jornal e um livreiro bem conhecido.

(ficamos sabendo nessa segunda parte - através de uma carta - que Eve e David terão um filho)

Em seu novo círculo de amigos, "Lucien só ouvira conversas sobre dinheiro. No teatro como nos lançamentos de livros, nas livrarias como nos jornais, a arte e o talento não estavam em jogo". - página 128.

Lucien descobre que até as potências das vaias no teatro são pagos pelo concorrente. Além do diretor do jornal fechar uma parceria com o teatro para ganhar dinheiro falando bem das peças nos jornais.

O poeta tem sua primeira matéria publicada e foi aclamado por todos, ganha o coração de uma ²jovem atriz e começa a se deslumbrar com o ambiente em que os jornalistas vivem. Bem que seus amigos avisaram.
(lá em cima no slide 2 tem uma foto que explica essa parte. Pause e veja)

Trecho da Segunda parte

"Meu Deus, preciso de ouro a qualquer preço! O ouro é o único poder diante do qual essa gente se ajoelha. Não, o ouro não, mas a glória, e a glória é o trabalho. Trabalho, o lema de David. Meu Deus, por que estou aqui? Mas vou vender!" - pensamento de Lucien - página 90



Os amigos do Cenáculo revisaram a sua obra e, de acordo com o autor, já dá para entender a profundeza dessa amizade: "Lucien havia entregue uma criança desengonçada e malvestida e recebia uma moça bonita e charmosa" - página 146.

De qualquer forma, os amigos ficaram tristes ao saber que ele tinha se entregue ao meio jornalístico se vendendo à corrupção que rolava naquele ambiente.

"Sua consciência lhe gritava 'Você vai ser jornalista!', como a feiticeira gritou para Macbeth: 'Você vai ser rei!'." - página 148.

A matéria de Lucien foi responsável pela ascensão de ²Coralie.

(Lucien já está em Paris há 3 anos e pela escrita parece apenas 1 ou 2 meses)

E enfim. Lucien começa a trabalhar  no jornal e conhece os seus bastidores. Ele já entrou no jogo dos jornalistas. Tudo acontece como se não houvesse público que lesse. Apenas intrigas aqui acolá (pessoais) com pessoas de nome. Coisas que não deveriam ser encaradas como "normais" no jornalismo. E outras porqueiras.

Assim, Lucien ascende na profissão e consegue, atacando um autor no jornal, publicar o seu livro de poesias. Decide se vingar da senhora Bargeton e do ministro usando o seu cargo de jornalista. Além de ter abandonado os seus amigos do grupo Cenáculo, aparentemente também a sua família. Lucien está deslumbrado com as suas conquistas em Paris.

"Como a maioria dos jornalistas, vivia cada dia intensamente, gastando à medida que ganhava". - página 181.

Os jornais parecem que existem apenas para trocarem tapas...
Lucian volta à sua amizade com a senhora..... após seu marido falecer. E dessa forma Lucien começa a querer uma vida como republicano deixando de "ser liberal".

Mas Lucian começou uma boa-vida - passou a se divertir e esquecer o trabalho. Logo, Lucien e Coralie se endividaram e tiveram que vender tudo e morar em um apartamento simples. Os amigos do Cenáculo foram visitá-lo para aconselhar sobre os perigos de sua posição política.

Como havia previsto seu amigo Daniel - Lucien começa a ser atacado nos jornais. Tudo aconteceu - seus amigos jornalistas começaram a atacá-lo enquanto tramavam a sua queda. Ele foi considerado monarquista enquanto foi obrigado (por causa do contrato com o jornal liberal) de escrever matérias liberais. E assim, perdeu a confiança com o grupo cenáculo...

Spoiler (se quiser ler, não leia essa parte)

Tudo deu errado. Lucien perdeu sua credibilidade com os liberais e os monarcas, Coralie adoeceu mas continuou trabalhando até que não aguentou mais. Lucien ficou sem dinheiro e saiu com apenas 20 francos para voltar pra casa no interior - andando.

Pelo que li, Lucien se perdeu em sua vaidade e acabou esquecendo de sua família e de seus verdadeiros amigos que o aconselhavam para o caminho certo. De pobre rico, de rico pobre, Lucian apenas se lamentou. Não tinha mais o que fazer. Podia ter se tornado um grande escritor com o livro que seus amigos revisaram e melhoraram.
Pobre Lucian.
O ponto negativo
A narrativa começa com os personagens Nicolas e David Séchard (e Eve também). Só sabemos, após a viagem de Lucien para Paris, que eles estão esperando um filho. Mais nada. Senti falta de saber qual foi o destino desses personagens. Se eles tinham melhorado de vida, se viviam felizes, se o negócio da tipografia tinha dado certo, o que eles pensavam de David mesmo o ajudando financeiramente. Essas coisas. Fora isso, gostei de tudo. Até do destino de Lucien e eu não me importo em saber se ele conseguiu voltar para o interior.


A minha edição é acompanhada de quatro (4) textos: sobre Balzac, sobre a narrativa, sobre o contexto histórico e sobre a história do jornalismo e a profissão.

Se não fosse as suas verdadeiras experiências como escritor e tipógrafo, Balzac não teria escrito esta obra. Seu pai e sua irmã foram pessoas fundamentais em sua vida e carreira difícil. Balzac teve a mesma ambição de seu personagem Lucien - dinheiro e fama.

Balzac também foi amante de Eveline (uma condessa polonesa) onde, acredito eu, inspirou o nome da personagem Eve, irmã e mulher de Lucien e David, respectivamente. Ou seja, Balzac foi tipógrafo como David, teve uma amante que se chamava Eveline, e teve a mesma ambição do personagem Lucien.

Balzac escreveu freneticamente. Obteve sucesso e reconhecimento. Mas não pôde explorar de sua riqueza como deveria. Oito anos após se casar, morreu em 1850.

Seu estilo se divide entre romancismo e realismo. Além de suas obras comporem personagens bem construídos e vivos à época. Por isso sua importância antropológica.

O que se passa no Brasil no período do livro é a independência. O país se tornava independente de Portugal, sob regência de dom Pedro I que reinou de 1822 a 1831.

O personagem Lucien se encontrava na época do começo do jornalismo. Não havia muitas regras, padrões e condutas como há hoje em dia. Apesar de muita coisa continuar acontecendo.

"Os jornais eram palco para fofocas, troca de desaforos ou de gentilezas, e críticas absolutamente pessoais. Não se pode dizer que nos dias de hoje tenha havido uma mudança radical em relação a esse panorama, mas o jornalismo adquiriu uma feição mais profissional [...]".

O primeiro jornal brasileiro, feito e para brasileiros, foi publicado em Londres, em 1808. O Correio Braziliense era dirigido e redigido por Hipólito José da Costa, refugiado na Inglaterra por causa da Inquisição.
+ Balzac nasceu em 16 de maio de 1799, na cidade de Tours, capital da Touraine, considerada uma das regiões mais belas da Europa. Filho de Bernard-Fraçois Balssa, agricultor do sul da França, e da parisiense Laure Salambier, Honoré Balssa de inspirou em Jean-Louis Guez de Balzac, um dos primeiros membros da Academia Francesa, para mudar de nome. [tirada do livro - um dos textos]